Bloqueadores dos Receptores H2 (Antagonistas H2)

 Bloqueadores dos Receptores H2 (Antagonistas H2)


Os bloqueadores dos receptores H₂, também conhecidos como antagonistas dos receptores histamínicos H₂, constituem uma importante classe de fármacos utilizada no tratamento de doenças ácido-pépticas, como úlceras gástricas e duodenais, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), gastrites e condições de hipersecreção ácida, incluindo a síndrome de Zollinger-Ellison. Esses medicamentos foram amplamente empregados a partir da década de 1970, representando um avanço significativo na farmacoterapia das doenças relacionadas à secreção gástrica antes do surgimento dos inibidores da bomba de prótons (IBPs). Seu mecanismo de ação, farmacocinética e perfil de segurança estabeleceram as bases para a compreensão moderna do controle farmacológico da acidez gástrica.

A histamina é um mediador endógeno fundamental na regulação da secreção de ácido clorídrico pelas células parietais do estômago. Ela se liga a receptores específicos do tipo H₂ localizados na membrana basolateral dessas células, estimulando a ativação da enzima adenilato ciclase e aumentando os níveis intracelulares de adenosina monofosfato cíclico (AMPc). Esse processo resulta na ativação da H⁺/K⁺-ATPase, conhecida como bomba de prótons, responsável pela secreção final de íons hidrogênio no lúmen gástrico. Os antagonistas H₂ atuam bloqueando competitivamente esses receptores, impedindo a ação da histamina e, consequentemente, reduzindo a secreção ácida tanto basal quanto aquela estimulada por alimentos, gastrina e acetilcolina. Embora sua ação não seja tão potente ou duradoura quanto a dos inibidores da bomba de prótons, os antagonistas H₂ proporcionam uma supressão eficaz e rápida da secreção gástrica, especialmente durante o período noturno, sendo úteis em terapias de curta e média duração.

Os principais representantes dessa classe incluem a cimetidina, a ranitidina, a famotidina, a nizatidina e, menos comumente, a roxatidina. Entre eles, a cimetidina foi o primeiro fármaco desenvolvido, sendo aprovada para uso clínico em 1976, marcando um marco histórico na gastroenterologia terapêutica. A ranitidina e a famotidina foram posteriormente introduzidas com o objetivo de aumentar a potência, prolongar a duração do efeito e reduzir as interações medicamentosas observadas com a cimetidina.

A farmacocinética dos antagonistas H₂ é relativamente semelhante entre os diferentes fármacos da classe. São rapidamente absorvidos por via oral, com início de ação entre 30 e 60 minutos após a administração. A biodisponibilidade varia de 40% a 90%, dependendo do composto e da presença de alimentos no trato gastrointestinal, que pode retardar, mas não comprometer a absorção. A maioria apresenta meia-vida plasmática entre 2 e 4 horas, o que justifica a administração duas vezes ao dia em muitas indicações clínicas. No entanto, seu efeito inibitório sobre a secreção ácida pode persistir por 6 a 12 horas, dependendo da dose e da formulação. Esses fármacos são excretados principalmente pelos rins, e ajustes de dose são recomendados em pacientes com insuficiência renal, especialmente para a cimetidina e a ranitidina.

Do ponto de vista terapêutico, os antagonistas H₂ são eficazes na cicatrização de úlceras gástricas e duodenais, na redução dos sintomas de pirose e regurgitação na DRGE e na profilaxia de úlceras de estresse em pacientes hospitalizados. Também são utilizados para prevenir a recorrência de úlceras induzidas por anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e no tratamento adjuvante de condições hipersecretoras, como gastrinomas. Antes da introdução dos IBPs, constituíam a principal opção farmacológica para controle da secreção ácida e promoção da cicatrização de lesões gastrointestinais. Apesar de atualmente terem sido parcialmente substituídos pelos inibidores da bomba de prótons, os antagonistas H₂ ainda possuem valor clínico em situações que exigem redução moderada e rápida do ácido gástrico, bem como em pacientes que não toleram os IBPs ou apresentam contraindicações ao seu uso.

Os efeitos adversos dos antagonistas H₂ são geralmente leves e bem tolerados. Podem incluir cefaleia, tontura, constipação, diarreia, náusea e fadiga. No entanto, a cimetidina, o primeiro fármaco da classe, apresenta um perfil de reações adversas mais complexo devido à sua capacidade de inibir diversas isoenzimas do citocromo P450, interferindo no metabolismo de fármacos como varfarina, fenitoína, teofilina e diazepam. Além disso, a cimetidina pode causar efeitos endócrinos relacionados à sua afinidade por receptores androgênicos, como ginecomastia, impotência e galactorreia em tratamentos prolongados ou com doses elevadas. Esses efeitos motivaram o desenvolvimento de novos compostos, como ranitidina, famotidina e nizatidina, que possuem menor potencial de interação medicamentosa e menor incidência de efeitos hormonais.

Com o passar dos anos, a segurança da ranitidina foi colocada em questão após a detecção de impurezas contendo N-nitrosodimetilamina (NDMA), uma substância potencialmente carcinogênica. Esse achado levou à retirada da ranitidina do mercado em diversos países a partir de 2020, destacando a importância do controle rigoroso de qualidade farmacêutica e da vigilância sanitária na produção de medicamentos. Atualmente, a famotidina é considerada a opção mais segura e amplamente utilizada dessa classe, devido à sua alta potência, longa duração de ação, ausência de metabolismo hepático significativo e baixo potencial de interações.

A farmacodinâmica dos antagonistas H₂ demonstra que eles são mais eficazes na inibição da secreção ácida noturna, período em que a liberação de histamina é predominante. Essa característica torna-os particularmente úteis na redução da acidez basal e na prevenção de sintomas noturnos da DRGE. Entretanto, a tolerância ao efeito dos antagonistas H₂ pode desenvolver-se com o uso contínuo, geralmente após alguns dias ou semanas de tratamento, reduzindo gradualmente a eficácia supressora de ácido. Esse fenômeno é menos pronunciado com os inibidores da bomba de prótons, o que explica em parte a substituição progressiva desses fármacos na prática clínica moderna.

Os bloqueadores dos receptores H₂ representam um marco no desenvolvimento da farmacologia gastrointestinal e permanecem relevantes no contexto clínico atual. Apesar de sua eficácia ser inferior à dos inibidores da bomba de prótons para supressão prolongada da secreção ácida, sua segurança, custo acessível e rapidez de ação justificam seu uso em diversas situações terapêuticas. O conhecimento detalhado sobre seu mecanismo de ação, farmacocinética e perfil de segurança continua sendo essencial para o uso racional desses medicamentos, garantindo eficácia terapêutica e minimizando riscos. Dessa forma, os antagonistas H₂ permanecem como uma ferramenta valiosa na terapêutica das doenças ácido-pépticas, consolidando-se como uma das classes mais importantes na história da farmacologia clínica moderna.



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