Carbonato de Cálcio

Carbonato de Cálcio


O carbonato de cálcio (CaCO₃) é um composto químico amplamente utilizado na medicina, especialmente na classe dos antiácidos e suplementos minerais. Trata-se de uma substância alcalina de origem mineral, encontrada naturalmente em rochas calcárias, conchas marinhas e em organismos vivos. No campo farmacêutico, o carbonato de cálcio desempenha papel duplo: atua como agente neutralizante da acidez gástrica e como fonte de cálcio para a suplementação nutricional. Sua importância clínica decorre tanto de suas propriedades químicas quanto de sua segurança terapêutica, quando utilizado de forma adequada e sob supervisão profissional.

Como antiácido, o carbonato de cálcio age por meio de uma reação de neutralização do ácido clorídrico (HCl) presente no estômago. A reação química produz cloreto de cálcio (CaCl₂), dióxido de carbono (CO₂) e água (H₂O). Essa neutralização reduz a acidez gástrica e alivia sintomas como azia, queimação, dor epigástrica e desconforto digestivo. Diferentemente de outros antiácidos, como o hidróxido de alumínio e o hidróxido de magnésio, o carbonato de cálcio possui alta capacidade de neutralização ácida, o que lhe confere um efeito mais prolongado. No entanto, essa característica também aumenta o risco de efeitos adversos, como a produção excessiva de gás e o chamado “efeito rebote”, no qual há aumento compensatório da secreção ácida após o término do efeito do medicamento.

Além de seu uso como antiácido, o carbonato de cálcio é amplamente empregado como suplemento de cálcio na prevenção e no tratamento de condições associadas à deficiência desse mineral, como osteoporose, osteopenia e hipocalcemia. O cálcio é essencial para a mineralização óssea, contração muscular, coagulação sanguínea e funcionamento enzimático. A absorção intestinal do cálcio proveniente do carbonato é favorecida pela presença de ácido gástrico; portanto, sua administração é recomendada preferencialmente durante as refeições. Em indivíduos com acloridria (baixa produção de ácido gástrico), a absorção pode ser reduzida, sendo indicada a substituição por sais mais solúveis, como o citrato de cálcio.

Do ponto de vista farmacocinético, o carbonato de cálcio apresenta absorção variável no trato gastrointestinal, estimada entre 15% e 25% da dose administrada. A fração não absorvida é eliminada pelas fezes, enquanto o cálcio absorvido é distribuído principalmente nos ossos e dentes, e em menor quantidade no plasma e tecidos moles. O excesso de cálcio no organismo é excretado pelos rins. Quando utilizado em doses adequadas, o carbonato de cálcio é seguro; contudo, o uso prolongado ou em altas doses pode levar à hipercalcemia, alcalose metabólica e insuficiência renal, um quadro conhecido como síndrome leite-álcali.

Em relação às interações medicamentosas, o carbonato de cálcio pode interferir na absorção de diversos fármacos, incluindo antibióticos das classes das tetraciclinas e fluoroquinolonas, hormônios tireoidianos e suplementos de ferro. Por esse motivo, recomenda-se que sua administração seja espaçada em pelo menos duas horas em relação a outros medicamentos. Além disso, o uso concomitante com diuréticos tiazídicos pode aumentar o risco de hipercalcemia devido à diminuição da excreção renal de cálcio.

No contexto clínico, o carbonato de cálcio é geralmente bem tolerado, apresentando poucos efeitos adversos quando utilizado corretamente. Entre os mais comuns estão constipação intestinal e distensão abdominal, decorrentes da liberação de gás carbônico durante a neutralização ácida. Para minimizar esses efeitos, alguns produtos comerciais associam o carbonato de cálcio a outros antiácidos, como o hidróxido de magnésio, que possui leve ação laxativa, equilibrando o funcionamento intestinal.

O carbonato de cálcio é um fármaco de grande relevância terapêutica e nutricional, graças à sua eficácia na neutralização da acidez gástrica e na suplementação de cálcio. Seu uso racional proporciona benefícios importantes na saúde digestiva e óssea, sendo uma opção segura e acessível quando administrada dentro das doses recomendadas. Contudo, a automedicação e o uso prolongado sem orientação médica devem ser evitados, uma vez que podem resultar em distúrbios metabólicos e interações medicamentosas indesejadas. Assim, o carbonato de cálcio permanece como um exemplo clássico de medicamento cuja simplicidade química se traduz em alta utilidade clínica e farmacológica.



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