Estomazil
O Estomazil representa uma formulação clássica de antiácido efervescente, amplamente utilizada no Brasil para o alívio rápido de sintomas dispépticos. Desenvolvido pela indústria farmacêutica nacional, como a Hypera Pharma e Brainfarma, o medicamento está disponível principalmente na forma de pó efervescente em sachês de 5 g ou frascos de 100 g, com opções de sabores neutro, abacaxi, laranja e guaraná, além de pastilhas mastigáveis em formulações alternativas. Sua composição quantitativa por grama inclui 462 mg de bicarbonato de sódio (NaHCO₃), 90 mg de carbonato de sódio (Na₂CO₃) e 438 mg de ácido cítrico (C₆H₈O₇), complementados por excipientes como aspartamo e aromatizantes. Essa associação sinérgica confere ao Estomazil propriedades físico-químicas únicas, caracterizadas pela efervescência vigorosa ao contato com água, resultante da liberação de dióxido de carbono (CO₂).
Do ponto de vista farmacológico, o mecanismo de ação do Estomazil fundamenta-se na neutralização química rápida do ácido clorídrico gástrico (HCl). Ao dissolver-se em meio copo d'água (aproximadamente 100 mL), ocorre a reação exotérmica: o ácido cítrico reage com o bicarbonato e carbonato de sódio, gerando citrato de sódio (cerca de 2,9 g por sachê), CO₂ e H₂O. Posteriormente, no estômago, o citrato de sódio e íons bicarbonato neutralizam o HCl, produzindo cloreto de sódio (NaCl), CO₂ e H₂O, elevando o pH gástrico de 1,5-3,5 para valores neutros (pH 4-5) em minutos. Uma grama de NaHCO₃ neutraliza cerca de 130 mL de HCl 0,1N, conferindo capacidade neutralizante superior a muitos antiácidos convencionais. O CO₂ liberado promove distensão gástrica leve, facilitando a eructação e aliviando flatulência associada. Ademais, o citrato de sódio exibe efeitos diuréticos, alcalinizantes e laxantes suaves, oxidando-se nos tecidos para CO₂ e elevando a reserva alcalina sanguínea e urinária, sem inibir a secreção gástrica basal.
Farmacocineticamente, o bicarbonato é absorvido rapidamente pela mucosa gástrica e duodenal, entrando na circulação como íons HCO₃⁻ e Na⁺, com meia-vida plasmática curta (30-60 minutos) e excreção renal preponderante. Não sofre metabolismo hepático significativo, mas seu uso excessivo pode induzir alcalose metabólica transitória. clinicamente, o Estomazil é indicado para pirose (azia), dispepsia funcional e mal-estar gástrico pós-prandial, com ação sintomática imediata. Um estudo randomizado duplo-cego com 97 pacientes dispépticos demonstrou eficácia equivalente a antiácidos concorrentes (p=0,399), com redução média de 4,25 pontos em escalas de sintomas. A posologia recomendada é 1 sachê (5 g) dissolvido, repetível após 2 horas, máximo 10 g/dia, em adultos.
Contudo, seu perfil de segurança exige cautela. Contraindicado em alcalose preexistente, hipocloridria, hipocalcemia (risco de tetania) e restrições sodianas (hipertensão, insuficiência cardíaca/renal), devido ao alto teor de sódio (~1,2 g/sachê). Efeitos adversos comuns (1-10%) incluem flatulência, rebote ácido, distensão, náuseas e alcalose em sobredosagem. Interage com >20 fármacos, reduzindo absorção de cetoconazol, digoxina e bisfosfonatos (separar por 2-4 horas). Em grávidas, uso restrito.
Dissertativamente, o Estomazil exemplifica a relevância dos antiácidos efervescentes na terapia escalonada da DRGE e dispepsia: ideal para alívio "on demand" em crises agudas, superior em onset (1-3 min) aos inibidores de bomba de prótons (IBPs, 30-60 min), mas inferior em duração (30-60 min vs. 24h). Em contextos de automedicação, promove adesão por praticidade, mas seu uso prolongado (>2 semanas) demanda investigação etiológica, evitando masking de úlceras ou neoplasias. Estudos como Maton (1999) reforçam sua segurança em populações selecionadas, inclusive renais crônicos para correção acidótica.
O Estomazil consolida-se como pilar terapêutico acessível e eficaz na hiperacidez gástrica, equilibrando rapidez química com perfil favorável, desde que inserido em estratégia racional. Sua otimização futura poderia envolver formulações low-sodium para populações cardiovasculares vulneráveis, ampliando impacto na saúde digestiva pública.
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