Famotidina
A famotidina, introduzida na prática clínica no início da década de 1980, representa a evolução dos antagonistas dos receptores H2 da histamina, superando significativamente as limitações farmacológicas da cimetidina, molécula pioneira desta classe terapêutica. Desenvolvida a partir da estrutura básica da tiazol, em contraste com o núcleo imidazólico da cimetidina, a famotidina trouxe consigo um perfil farmacológico notavelmente melhorado, caracterizado por uma potência antisecretória acentuada, uma duração de ação prolongada e um perfil de interações medicamentosas consideravelmente mais favorável. A sua introdução no arsenal terapêutico consolidou o papel dos antagonistas H2 como pilares no manejo das doenças ácido-pépticas, posição que manteve mesmo com o advento subsequente dos inibidores da bomba de prótons.
Do ponto de vista farmacodinâmico, a famotidina exerce o seu efeito terapêutico através do bloqueio competitivo e seletivo dos receptores H2 da histamina nas células parietais gástricas. A sua potência é notável, sendo aproximadamente 20 a 50 vezes mais potente que a cimetidina e 6 a 10 vezes mais potente que a ranitidina em base molar. Este antagonismo resulta na inibição da secreção de ácido clorídrico, tanto de origem basal como estimulada por alimentos, histamina, pentagastrina ou cafeína. Um dos seus atributos mais valiosos na prática clínica é a sua longa duração de ação; uma dose única de 40 mg é capaz de suprimir a secreção ácida noturna por mais de 10 horas e a secreção basal e estimulada por períodos que variam entre 10 a 12 horas. Esta farmacodinâmica favorável permitiu a adoção de regimes posológicos de uma ou duas vezes ao dia, conferindo maior comodidade e adesão ao tratamento em comparação com os esquemas posológicos mais frequentes exigidos pela cimetidina.
A farmacocinética da famotidina é caracterizada por uma biodisponibilidade oral de aproximadamente 40-45%, que pode ser ligeiramente reduzida pela ingestão de alimentos, embora sem relevância clínica significativa. A sua ligação às proteínas plasmáticas é relativamente baixa (15-20%), e o seu volume de distribuição é de cerca de 1,1-1,4 L/kg. Cerca de 30-35% de uma dose administrada é metabolizada no fígado, originando o metabólito S-óxido, enquanto a fração restante (65-70%) é excretada inalterada pela urina através de secreção tubular ativa. A sua meia-vida de eliminação é de aproximadamente 2,5 a 4 horas em indivíduos com função renal normal, podendo prolongar-se significativamente em doentes com insuficiência renal, o que exige ajuste posológico. Uma das vantagens mais significativas da famotidina em relação à cimetidina reside no seu perfil de interações medicamentosas. Por não inibir de forma clinicamente relevante o sistema do citocromo P450, a famotidina apresenta um risco mínimo de interações com fármacos como a warfarina, a teofilina, a fenitoína ou os benzodiazepínicos, interações estas que eram uma preocupação considerável com o uso da cimetidina. Adicionalmente, a famotidina é desprovida dos efeitos antiandrogénicos observados com a sua precursora, não estando associada a ginecomastia, impotência ou diminuição da libido.
As principais indicações terapêuticas da famotidina incluíram o tratamento de úlceras duodenais e gástricas ativas, a prevenção de recidivas ulcerosas, o tratamento da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e o manejo de condições de hipersecreção ácida patológica. A sua eficácia na cicatrização de úlceras duodenais é comparável à de outros antagonistas H2, com taxas que atingem 80-90% após 4 a 8 semanas de tratamento. Embora a sua utilização para estas indicações tenha diminuído com a supremacia clínica dos inibidores da bomba de prótons, a famotidina manteve um nicho terapêutico importante, nomeadamente no tratamento sob demanda da pirose e no contexto de profilaxia perioperatória de pneumonia por aspiração (Síndrome de Mendelson). O seu legado permanece como o de um antagonista H2 de referência, que conseguiu otimizar a relação benefício-risco dentro da sua classe, oferecendo uma potência excecional e um perfil de segurança notavelmente limpo, que a tornou uma opção valiosa e duradoura na terapêutica gastrointestinal.

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