Sucralfato
O sucralfato, conhecido quimicamente como sacarose octassulfato de alumínio, é um medicamento amplamente utilizado na gastroenterologia por suas propriedades citoprotetoras, atuando como um agente antiulceroso não sistêmico. Desenvolvido na década de 1960 no Japão e introduzido no mercado farmacêutico na década de 1980, o sucralfato representa um avanço no tratamento de afecções gastrointestinais, especialmente úlceras pépticas, ao formar uma barreira física sobre a mucosa lesada sem alterar significativamente a acidez gástrica. Sua fórmula molecular, C12H30Al16O51S8·xH2O, reflete uma estrutura polimérica complexa que, em meio ácido, polimeriza e adere seletivamente às proteínas expostas em sítios ulcerados, promovendo a cicatrização e protegendo contra agressores como ácidos, pepsina e sais biliares. Esse mecanismo de ação difere dos inibidores de bomba de prótons ou antagonistas H2, pois não inibe a secreção ácida, mas reforça os mecanismos naturais de defesa da mucosa gástrica, estimulando a produção de muco, bicarbonato e prostaglandinas, o que acelera a regeneração tecidual.
Do ponto de vista farmacocinético, o sucralfato exibe baixa absorção sistêmica, com apenas 3% a 5% da dose administrada sendo absorvida no trato gastrointestinal, o que minimiza efeitos adversos sistêmicos e o torna seguro para uso prolongado em pacientes com comorbidades. Após ingestão oral, o composto reage com o ácido clorídrico gástrico, formando um gel viscoso que adere à úlcera por até seis horas, proporcionando proteção contínua. A eliminação ocorre predominantemente pelas fezes, sem metabolização hepática significativa, o que reduz interações com outros fármacos metabolizados pelo citocromo P450. Estudos clínicos demonstram que sua biodisponibilidade é negligible, com picos plasmáticos de alumínio abaixo de níveis tóxicos, embora deva ser monitorado em pacientes com insuficiência renal crônica para evitar acúmulo de alumínio.
As indicações terapêuticas do sucralfato abrangem principalmente o tratamento de curto prazo, até oito semanas, de úlceras duodenais ativas, úlceras gástricas benignas e gastrite crônica, incluindo formas erosivas associadas ao estresse ou ao uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). Além disso, é empregado na profilaxia de recidivas ulcerosas e no alívio sintomático de azia, pirose e dispepsia não ulcerosa, sendo particularmente útil em pacientes que não toleram terapias acidossupressoras. Em contextos hospitalares, o sucralfato é aplicado na prevenção de úlceras de estresse em pacientes críticos, como aqueles em ventilação mecânica ou com queimaduras extensas, onde sua ação local evita hemorragias gastrointestinais. Ensaios clínicos randomizados, como os publicados na literatura médica, confirmam taxas de cicatrização de úlceras duodenais em até 80% após quatro semanas de tratamento, superando placebos e comparando-se favoravelmente a outros agentes.
A posologia recomendada varia conforme a indicação, mas geralmente envolve 1 g (um comprimido ou sachê) quatro vezes ao dia, preferencialmente uma hora antes das refeições e ao deitar, para maximizar a adesão à mucosa vazia. Em suspensões orais, a dose é equivalente, facilitando a administração em pacientes com disfagia. Quanto aos efeitos colaterais, o sucralfato é bem tolerado, com incidência baixa de reações adversas, sendo a constipação o mais comum (cerca de 2-5% dos casos), seguida por boca seca, náuseas e flatulência. Raros casos de hipofosfatemia ou bezoares gástricos foram reportados, especialmente em uso prolongado. Contraindicações incluem hipersensibilidade ao composto ou insuficiência renal grave (clearance de creatinina <30 mL/min), devido ao risco de toxicidade por alumínio, que pode levar a encefalopatia ou osteomalacia. Interações medicamentosas são notáveis com antibióticos como tetraciclinas, fluoroquinolonas e digoxina, cuja absorção pode ser reduzida pela ligação ao sucralfato; recomenda-se espaçamento de pelo menos duas horas entre as administrações.
Em síntese, o sucralfato destaca-se como uma opção terapêutica valiosa no arsenal contra doenças gastrointestinais, oferecendo proteção mucosal eficaz com perfil de segurança favorável. Sua relevância persiste em cenários onde a supressão ácida é contraindicada, contribuindo para a redução de morbidade associada a úlceras pépticas, que afetam milhões globalmente. Avanços em formulações, como associações com anestésicos locais para esofagite, ampliam seu escopo, reforçando seu papel na medicina contemporânea.

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