Acarbose
A acarbose é um medicamento pertencente à classe dos inibidores da alfa-glicosidase, amplamente utilizado no tratamento do diabetes mellitus tipo 2, especialmente em situações nas quais há predomínio de hiperglicemia pós-prandial. Seu mecanismo de ação baseia-se na inibição competitiva e reversível das enzimas alfa-glicosidases presentes na borda em escova do intestino delgado. Essas enzimas são responsáveis pela quebra de carboidratos complexos em monossacarídeos absorvíveis. Ao inibi-las, a acarbose retarda a digestão e absorção de carboidratos, reduzindo o aumento abrupto da glicemia logo após as refeições. Esse efeito contribui para melhor controle glicêmico diário, especialmente em pacientes que apresentam picos pós-prandiais significativos, mesmo quando a glicemia de jejum está adequadamente controlada.
A acarbose é administrada por via oral, geralmente imediatamente antes das refeições, e sua eficácia depende da presença de carboidratos no alimento ingerido. O medicamento não estimula a secreção de insulina nem aumenta sua sensibilidade, razão pela qual apresenta baixo risco de hipoglicemia quando utilizado isoladamente. No entanto, quando associado a outros antidiabéticos que promovem aumento da insulina circulante, como sulfonilureias ou insulina exógena, o risco de hipoglicemia pode aumentar. Nesses casos, recomenda-se tratamento da hipoglicemia com glicose pura (dextrose), uma vez que a absorção de sacarose pode estar retardada pela ação do fármaco.
A redução da hemoglobina glicada (HbA1c) obtida com o uso da acarbose é moderada, variando, em geral, entre 0,5% e 0,8%. Dessa forma, o medicamento é frequentemente indicado como adjuvante terapêutico em combinação com outros agentes hipoglicemiantes, como metformina, sulfonilureias ou inibidores de DPP-4. Sua utilidade é particularmente destacada em pacientes com dieta rica em carboidratos complexos e em indivíduos recém-diagnosticados, nos quais intervenções dietéticas apresentam papel central no manejo metabólico.
Os efeitos adversos mais comuns da acarbose são gastrointestinais, incluindo flatulência, distensão abdominal e diarreia. Esses sintomas resultam da fermentação colônica dos carboidratos não absorvidos, processo que aumenta a produção de gases. Embora esses efeitos possam limitar a adesão ao tratamento, muitas vezes são transitórios e podem ser minimizados pelo ajuste gradual da dose e pela orientação dietética. Raramente, foram relatados casos de elevação de enzimas hepáticas, justificando monitoramento laboratorial em tratamentos prolongados.
A acarbose não causa ganho de peso e não interfere na secreção endógena de insulina, características relevantes em pacientes com sobrepeso ou risco cardiovascular elevado. Além disso, alguns estudos sugerem que a redução consistente da hiperglicemia pós-prandial pode contribuir para diminuição da progressão de complicações microvasculares e para melhora da função endotelial, embora esses efeitos ainda sejam objeto de investigação.
Em síntese, a acarbose é uma opção terapêutica eficaz para o controle da hiperglicemia pós-prandial no diabetes mellitus tipo 2, com perfil de segurança favorável e baixo risco de hipoglicemia quando utilizada isoladamente. Seu uso deve ser ajustado à tolerância gastrointestinal do paciente e integrado a um plano terapêutico que inclua modificações no estilo de vida e, quando necessário, associações farmacológicas.

Comentários
Postar um comentário