Impacto da ESF na redução de internações
por erros medicamentosos
O impacto da Estratégia Saúde da Família (ESF) na redução de internações por erros medicamentosos destaca-se como um dos avanços mais significativos no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, ao integrar cuidados preventivos e o uso racional de medicamentos (URM) na atenção primária. Implementada desde 1994, a ESF reorganiza o modelo de saúde com equipes multiprofissionais em Unidades Básicas de Saúde (UBS), cobrindo territórios urbanos e rurais para promover acesso equitativo e longitudinalidade do cuidado. Erros medicamentosos, definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como falhas no processo de prescrição, dispensação, administração ou monitoramento de fármacos, incluem interações adversas, dosagens inadequadas e polimedicação, uso de cinco ou mais medicamentos simultâneos, prevalente em 20-30% dos idosos. Esses erros respondem por 5-8% das internações hospitalares globais, prolongando estadias em até 4-5 dias e elevando custos em 50-70% na assistência farmacêutica, conforme revisões sistemáticas. No Brasil, estudos indicam que eventos adversos a medicamentos causam até 10% das hospitalizações evitáveis, agravados por automedicação em 76% da população e prescrições inadequadas em 40-50% dos casos.
A ESF mitiga esses riscos por meio da integração do farmacêutico na equipe, conforme a Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF) de 2004, que enfatiza a farmacovigilância e o monitoramento via sistemas como o Notivisa. O farmacêutico realiza análise de prescrições, identificando interações via enzimas do citocromo P450 (CYP450), contraindicações e ajustes posológicos baseados em clearance renal ou hepático, reduzindo erros de prescrição em até 70% em contextos primários. Agentes Comunitários de Saúde (ACS), capacitados em oficinas de URM, identificam riscos domiciliares como armazenamento inadequado – temperaturas acima de 30°C que degradam a estabilidade farmacêutica, e não adesão, avaliada pela escala Morisky-Green, promovendo educação em saúde e seguimento farmacoterapêutico. Em municípios com cobertura ESF acima de 70%, como em Vitória da Conquista (BA), observou-se redução de 45% nas internações por condições sensíveis à atenção básica (ICSAB), incluindo complicações de DCNT agravadas por erros medicamentosos, graças ao melhor acesso a medicamentos da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) e protocolos de adesão.
Estudos longitudinais, como o da Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM), revelam que a expansão da ESF entre 2008-2018 diminuiu em 15-20% as hospitalizações por reações adversas a medicamentos (RAM), como hipotensão por anti-hipertensivos ou hemorragias por anticoagulantes, ao fomentar a dispensação orientada e o combate à resistência antimicrobiana (RAM), com prescrições inadequadas de antibióticos caindo de 54% para 35% em UBS com farmacêuticos integrados. Técnicas como o critério de Beers e STOPP/START auxiliam na desprescrição de fármacos potencialmente inadequados, reduzindo polimedicação e iatrogenias em idosos, que representam 60% das internações por erros. Além disso, sistemas digitais como o Hórus otimizam o gerenciamento de estoques, evitando dispensações errôneas e perdas por vencimento em até 25%.
Desafios incluem a subnotificação de erros, apenas 5-10% são reportados no Notivisa, e desigualdades regionais, com cobertura ESF menor em áreas rurais, onde erros por automedicação são mais frequentes. Iniciativas como o Terceiro Desafio Global da OMS, "Medicação sem Danos", e o Programa Mais Saúde com Agente, que capacitou 109 mil ACS até 2025, fortalecem essas ações, promovendo cultura de segurança e análise de causa raiz para erros.
O impacto da ESF na redução de internações por erros medicamentosos alinha-se aos princípios de universalidade e integralidade do SUS, otimizando recursos e melhorando a qualidade de vida. Ao priorizar prevenção via educação, vigilância e integração multiprofissional, a ESF não só diminui custos hospitalares em bilhões anuais, mas consolida a atenção primária como barreira contra iatrogenias, fomentando um sistema de saúde mais resiliente e equitativo frente ao envelhecimento populacional e epidemias de DCNT.
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