Losartana (Aradois, Cozaar)

 Losartana
(Aradois, Cozaar)

A Losartana carrega o título histórico de ser o primeiro BRA introduzido na prática clínica, inaugurando uma nova era no bloqueio do SRAA. No Brasil e em grande parte do mundo, mantém-se como o mais prescrito de sua classe, um testemunho de sua eficácia comprovada, perfil de segurança favorável e, frequentemente, maior acessibilidade. Do ponto de vista químico-farmacológico, a losartana possui uma particularidade interessante: ela é um pró-fármaco. A molécula administrada por via oral é inativa. Para exercer seu potente antagonismo no receptor AT1, ela precisa ser biotransformada no fígado, principalmente pela isoenzima CYP2C9 do citocromo P450, em seu metabólito ativo, o EXP-3174. Este metabólito é responsável pela maior parte do efeito terapêutico, sendo um antagonista não competitivo de longa duração no receptor.

Farmacocineticamente, a losartana apresenta uma biodisponibilidade oral de cerca de 33%, que é moderadamente afetada pela presença de alimentos, podendo reduzi-la. O pico plasmático do pró-fármaco ocorre em 1 hora, enquanto o do metabólito ativo EXP-3174 ocorre entre 3 e 4 horas. Sua meia-vida é relativamente curta (cerca de 2 horas para a losartana e 6 a 9 horas para o EXP-3174), o que, em tese, sugeriria a necessidade de administração duas vezes ao dia para um controle de 24 horas. No entanto, estudos clínicos e a prática consolidada demonstram que, para muitos pacientes hipertensos, uma dose única diária é suficiente, graças à forte ligação e à ação prolongada do metabólito no sítio receptor. Sua eliminação é bifásica, por via biliar (cerca de 60%) e renal (cerca de 35%).

Clinicamente, a losartana é aprovada para o tratamento da hipertensão arterial, sendo eficaz e bem tolerada. No entanto, seu legado mais impactante foi construído no estudo LIFE (Losartan Intervention For Endpoint reduction in hypertension), que demonstrou de forma inequívoca que, em pacientes hipertensos com hipertrofia ventricular esquerda, a losartana foi superior ao atenolol (betabloqueador) na redução de desfechos cardiovasculares combinados (principalmente acidente vascular cerebral), estabelecendo um novo paradigma de proteção de órgãos-alvo. Também é indicada para a nefropatia diabética tipo 2 com proteinúria, onde retarda a progressão da doença renal, e para a insuficiência cardíaca (quando pacientes são intolerantes a IECA). Seu sucesso duradouro é um tributo a uma molécula que transformou a teoria do bloqueio do receptor AT1 em uma realidade clínica revolucionária


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