A Furosemida é o protótipo e o representante mais emblemático dos diuréticos de alça, uma classe de agentes caracterizados por uma potência natriurética e diurética excepcional, capaz de mobilizar grandes volumes de líquido em curtos períodos de tempo. Seu nome comercial, Lasix, é uma corruptela de "lasts six hours" (dura seis horas), aludindo à sua duração de ação. Ela atua no segmento mais crucial para a concentração da urina: a Alça Ascendente Espessa de Henle (AALH), localizada na medula renal. Seu alvo molecular específico é o cotransportador Na⁺-K⁺-2Cl⁻ (NKCC2) presente na membrana apical das células deste segmento. Ao inibir competitivamente este transportador, a furosemida bloqueia a reabsorção de aproximadamente 25% do sódio filtrado, uma fração muito maior do que a bloqueada pelas tiazidas (~5-8%). Esta inibição massiva tem duas consequências fisiológicas profundas: (1) produz uma diurese copiosa e rápida (pode exceder 1-2 litros de urina em poucas horas) e (2) interrompe o mecanismo de contracorrente, dissipando o gradiente de concentração medular essencial para a reabsorção de água no ducto coletor. O resultado é uma urina abundante e diluída.
Farmacocineticamente, a furosemida tem biodisponibilidade oral variável (40-70%) e começa a agir em 30-60 minutos (VO) ou 5 minutos (IV). Seu pico de ação ocorre em 1-2 horas (VO) e sua meia-vida é curta (1-2 horas), o que explica a necessidade de administrações múltiplas ao dia em tratamentos crônicos. É altamente ligada a proteínas plasmáticas (>95%) e é secretada ativamente na luz tubular via transportadores de ânions orgânicos (OAT) no túbulo proximal, chegando assim em alta concentração ao seu local de ação na alça de Henle.
Clinicamente, a furosemida não é um diurético de primeira linha para hipertensão simples. Sua vocação está no manejo de estados edematosos onde há retenção severa de sódio e água. É a droga de escolha para o edema agudo de pulmão na insuficiência cardíaca descompensada (via IV, proporcionando alívio dramático), para o edema na cirrose hepática e na síndrome nefrótica, e para a insuficiência renal aguda ou crônica. Seu uso requer monitorização rigorosa devido aos riscos de depleção volêmica excessiva (hipotensão), distúrbios eletrolíticos graves (hipocalemia, hiponatremia, hipomagnesemia) e ototoxicidade (especialmente com altas doses IV em pacientes com insuficiência renal). A furosemida é, portanto, o "artilheiro pesado" da diurese, uma ferramenta poderosa e indispensável para situações em que se precisa drenar o organismo rapidamente, usada com respeito e vigilância.
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