A Telmisartana destaca-se na classe dos BRA por possuir uma propriedade farmacológica adicional única: ela é um modulador seletivo do receptor ativado por proliferador de peroxissoma-gama (PPAR-γ). Enquanto todos os BRA bloqueiam o receptor AT1, a telmisartana vai além. Em concentrações terapêuticas, ela atua como um agonista parcial do PPAR-γ, o mesmo receptor alvo das tiazolidinedionas (como a pioglitazona), uma classe de fármacos para diabetes tipo 2. Este efeito, embora mais fraco do que o dos agentes dedicados, confere à telmisartana um perfil metabólico favorável, incluindo melhora da sensibilidade à insulina, redução da glicemia em jejum e dos níveis de triglicerídeos, e potencial aumento do colesterol HDL.
Farmacocineticamente, a telmisartana é notável. Possui a maior lipossolubilidade de todos os BRA e a maior meia-vida de eliminação (aproximadamente 24 horas), o que lhe confere uma duração de ação excepcionalmente longa e estável. Sua biodisponibilidade absoluta é de cerca de 50%. É minimamente metabolizada no organismo, sendo conjugada com ácido glucurônico; praticamente toda a dose é excretada inalterada nas fezes, via secreção biliar. Este perfil a torna uma escolha farmacologicamente robusta e com baixo potencial para interações medicamentosas de metabolismo.
Clinicamente, a telmisartana é um anti-hipertensivo potente e eficaz. Sua grande vantagem está no tratamento de pacientes hipertensos com comorbidades metabólicas, como a síndrome metabólica ou o diabetes mellitus tipo 2. Estudos como o ONTARGET (que a comparou ao ramipril, um IECA) demonstraram sua não-inferioridade em reduzir desfechos cardiovasculares maiores em pacientes de alto risco, com a vantagem de uma incidência muito menor de tosse. A telmisartana não é um hipoglicemiante, mas seu efeito sobre o PPAR-γ pode proporcionar benefícios metabólicos adicionais valiosos na população frequentemente polimedicada. Por sua ação dupla (anti-hipertensiva + modulação metabólica) e seu perfil farmacocinético excepcionalmente longo, a telmisartana é frequentemente considerada o BRA de escolha para o paciente hipertenso com síndrome metabólica, resistência à insulina ou intolerância à glicose, oferecendo um "dois-em-um" farmacológico que vai além do simples controle da pressão arterial.
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