O Enalapril marcou a evolução dos IECA em direção a um perfil farmacológico mais refinado e adequado para o tratamento crônico. Diferente do pioneiro captopril, o enalapril é um pró-fármaco. Administrado como o maleato de enalapril, é uma molécula inativa que carece do grupo sulfidrila. Após absorção gastrointestinal, sofre desesterificação no fígado, catalisada por enzimas esterases, para ser convertido em seu metabólito ativo: o enalaprilato. Esta conversão é crucial, pois o enalaprilato é o potente inibidor da ECA, com uma afinidade pela enzima aproximadamente 10 vezes maior do que a do pró-fármaco.
Esta característica de pró-fármaco confere vantagens práticas significativas. Primeiro, melhora a biodisponibilidade oral (cerca de 60%) em comparação com o captopril, pois a forma inativa é menos reativa e melhor absorvida. Segundo, resulta em um início de ação mais lento e gradual. O pico de concentração plasmática do enalapril ocorre em cerca de 1 hora, mas o pico do efeito inibitório da ECA pode levar de 3 a 4 horas, e o efeito hipotensor máximo é observado apenas após 4 a 6 horas. Este perfil é mais seguro, evitando quedas bruscas de pressão. O efeito anti-hipertensivo é duradouro, permitindo administração uma ou duas vezes ao dia. A eliminação do enalaprilato é predominantemente renal, exigindo ajuste de dose em pacientes com insuficiência renal.
Clinicamente, o enalapril tornou-se um dos IECA mais prescritos e estudados do mundo. Foi pivotal em estudos que estabeleceram o papel dos IECA como modificadores do curso da doença, não apenas como anti-hipertensivos. O estudo SOLVD (Studies Of Left Ventricular Dysfunction) demonstrou de forma categórica que o enalapril reduziu a mortalidade e as hospitalizações por insuficiência cardíaca em pacientes com disfunção ventricular esquerda assintomática e sintomática. Ele é eficaz no tratamento da hipertensão arterial, insuficiência cardíaca crônica e na nefroproteção de diabéticos. Por seu perfil de ação sustentada, eficácia robusta e vasta comprovação em ensaios clínicos de desfecho, o enalapril consolidou-se como um agente de primeira linha, um verdadeiro "cavalo de batalha" na terapêutica cardiovascular, demonstrando que a transformação hepática de uma molécula pode otimizar seu uso clínico.
Comentários
Postar um comentário