O Pilar da Hipertensão Hidroclorotiazida

 O Pilar da Hipertensão
Hidroclorotiazida


A Hidroclorotiazida (HCTZ) é, sem dúvida, o diurético mais emblemático e amplamente utilizado no mundo, especialmente na rede pública de saúde, onde sua relação custo-efetividade e perfil conhecido a tornam uma ferramenta terapêutica indispensável. Pertence à classe das tiazidas, derivadas benzotiadiazínicas, e seu nome já revela sua composição: uma molécula de benzodiazida com um grupo sulfonamida, responsável pela sua atividade inibitória. Seu alvo molecular é o cotransportador Na⁺-Cl⁻ (NCC) localizado na membrana apical das células do túbulo contornado distal do néfron. Ao inibir competitivamente este transportador, a HCTZ impede a reabsorção de sódio e cloreto para o interior da célula tubular. Este sódio não reabsorvido permanece na luz tubular, arrastando consigo água por osmose, o que resulta no aumento do volume e da excreção urinária.

No entanto, o mecanismo anti-hipertensivo da HCTZ vai além do simples efeito diurético agudo (redução do volume plasmático). Com o uso crônico, ocorre uma adaptação hemodinâmica: o volume plasmático tende a se normalizar, mas a resistência vascular periférica (RVP) diminui. Acredita-se que esta redução da RVP seja mediada por uma suave depleção de sódio das células do músculo liso vascular, reduzindo sua responsividade a agonistas vasoconstritores. Este duplo mecanismo, redução de volume inicial e diminuição da RVP a longo prazo, é a base de sua eficácia. Farmacocineticamente, a HCTZ tem uma biodisponibilidade de 60-70%, começa a agir em 2 horas, atinge o pico em 4-6 horas e possui uma meia-vida de 6 a 15 horas, permitindo administração única diária (geralmente pela manhã). É eliminada predominantemente por secreção tubular ativa na urina, inalterada.

Clinicamente, a HCTZ é uma droga de primeira linha na hipertensão arterial leve a moderada, frequentemente como agente inicial ou em combinação fixa com IECA, BRA ou bloqueadores de canais de cálcio. Seus efeitos adversos são dose-dependentes e incluem hipocalemia (perda de potássio), hiperuricemia (aumento do ácido úrico, podendo precipitar gota), intolerância à glicose (devido à inibição da secreção de insulina) e hiponatremia dilucional (mais comum em idosos). Apesar desses riscos, quando usada em doses baixas (12,5 a 25 mg/dia), seu perfil de benefício/risco é extremamente favorável, como demonstrado em grandes estudos como o ALLHAT. Por sua eficácia, baixo custo e vasta experiência clínica, a HCTZ permanece como um pilar inabalável no arsenal contra a hipertensão.



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