O Captopril ocupa um lugar de honra na história da farmacologia como o primeiro IECA a ser desenvolvido e introduzido na prática clínica. Sua descoberta, inspirada no veneno de jararaca, revolucionou o tratamento da hipertensão e abriu as portas para a modulação do SRAA. Quimicamente, o captopril é distintivo por possuir um grupo sulfidrila (-SH) em sua estrutura, que é diretamente responsável pela sua ligação ao íon zinco no sítio ativo da ECA. Esta é a chave da sua ação: liga-se à enzima de forma competitiva e reversível, inibindo-a com potência.
Por ser uma molécula ativa per se (não é um pró-fármaco), o captopril apresenta uma farmacocinética de ação rápida. Sua biodisponibilidade oral é moderada (cerca de 75%) e é significativamente reduzida pela presença de alimentos (em até 40%), recomendando-se administração uma hora antes das refeições. Após ingestão, o início da inibição da ECA ocorre em 15 minutos, com pico de efeito hipotensor em 1 a 2 horas. Esta característica o tornou historicamente útil no manejo de emergências hipertensivas (embora formas sublinguais não sejam mais recomendadas). No entanto, sua meia-vida é curta (cerca de 2 horas), e a duração do efeito anti-hipertensivo é limitada a 6-12 horas, o que frequentemente exige administração duas ou três vezes ao dia para controle sustentado, uma desvantagem para a adesão em tratamentos crônicos.
Além da tosse e do angioedema (comuns à classe), o grupo sulfidrila confere ao captopril um perfil de efeitos adversos específicos, hoje menos frequentes com doses mais baixas: erupções cutâneas, alteração do paladar (disgeusia) e, raramente, neutropenia. Clinicamente, suas indicações principais são as mesmas dos outros IECA: hipertensão, insuficiência cardíaca e nefropatia diabética. Foi através de estudos com captopril que o benefício dos IECA na insuficiência cardíaca foi inicialmente comprovado (estudo CONSENSUS). Hoje, embora seu uso crônico tenha sido em grande parte suplantado por IECA de ação mais prolongada, o captopril mantém um nicho importante pela sua ação rápida oral e por ser uma opção em pacientes com disfunção hepática (que não conseguem ativar pró-fármacos). É o patriarca da classe, cujo legado é a prova de que uma molécula simples pode inaugurar uma nova era na medicina.
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