O bevacizumabe é um anticorpo monoclonal humanizado que atua sobre o microambiente tumoral em vez de diretamente sobre a célula neoplásica, representando o primeiro agente antiangiogênico aprovado na oncologia. Seu alvo é o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A), o principal mediador da angiogênese fisiológica e patológica. O VEGF-A é secretado por células tumorais em resposta à hipóxia e à ativação de oncogenes, ligando-se aos receptores VEGFR-1 e VEGFR-2 na superfície das células endoteliais, desencadeando proliferação, migração, sobrevivência e permeabilidade vascular. O bevacizumabe liga-se ao VEGF-A circulante com alta afinidade, impedindo sua interação com os receptores e neutralizando seus efeitos pró-angiogênicos. O resultado é a normalização transitória da vasculatura tumoral (redução da pressão intersticial, melhora da perfusão e oxigenação) seguida de regressão vascular e inibição do crescimento tumoral.
O espectro de atividade do bevacizumabe é amplo, refletindo a dependência de diversos tumores sólidos da angiogênese para crescimento e metastização. É aprovado em combinação com quimioterapia para múltiplas neoplasias. No câncer colorretal metastático, combinado com regimes baseados em fluoropirimidina (FOLFOX, FOLFIRI), demonstrou aumento da sobrevida global e da progressão livre de doença. No câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) não escamoso avançado, a adição de bevacizumabe à quimioterapia com platina e paclitaxel ou pemetrexede proporciona benefício. No câncer de mama metastático, embora a indicação tenha sido retirada em algumas jurisdições, ainda é utilizado em combinação com paclitaxel para doença HER2-negativa. No carcinoma de células renais metastático, o bevacizumabe combinado com interferon-alfa foi um padrão histórico, hoje substituído por inibidores de tirosina quinase orais. Outras indicações incluem glioblastoma recidivado, câncer de ovário (em combinação com quimioterapia e como manutenção) e câncer cervical persistente, recidivado ou metastático.
O perfil de toxicidade do bevacizumabe é distinto e reflete os efeitos farmacodinâmicos da inibição do VEGF em tecidos normais. A hipertensão arterial é o efeito adverso mais comum, resultante da redução da produção de óxido nítrico endotelial e aumento da resistência vascular periférica. Requer monitorização regular e manejo com anti-hipertensores. A proteinúria ocorre por dano à barreira de filtração glomerular, exigindo monitorização por fita reagente ou relação proteína/creatinina urinária. O risco de eventos tromboembólicos arteriais (acidente vascular cerebral, infarto agudo do miocárdio) é aumentado, particularmente em pacientes com mais de 65 anos ou história prévia. O sangramento é uma complicação relevante, variando de epistaxe leve a hemorragia grave, sendo contraindicado em pacientes com hemoptise recente (comum em carcinomas escamosos de pulmão). A perfuração gastrointestinal é uma toxicidade rara, mas grave, mais frequente em pacientes com câncer colorretal e doença de Crohn subjacente. A deiscência de anastomose cirúrgica exige a suspensão do bevacizumabe por pelo menos 28 dias antes e após procedimentos cirúrgicos eletivos. A síndrome de leucoencefalopatia posterior reversível (PRES) é uma complicação neurológica rara. O manejo criterioso destas toxicidades é essencial para maximizar o benefício terapêutico do bevacizumabe, que permanece como uma ferramenta valiosa no arsenal antiangiogênico.
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