A bleomicina é um antibiótico antitumoral único, constituído por um complexo de glicopeptídeos naturais. A sua importância histórica e clínica é indelével, sendo um componente crítico de regimes curativos para o linfoma de Hodgkin e para tumores de células germinativas. O seu mecanismo de ação é distinto de todas as outras classes de quimioterapia e não causa mielossupressão significativa, o que a torna um agente combinatório ideal.
O mecanismo de ação da bleomicina é baseado na clivagem oxidativa das cadeias de DNA (e RNA). A molécula de bleomicina forma um complexo ativo com íons metálicos divalentes, tipicamente ferro (Fe²⁺), e oxigénio molecular. Este complexo atua como uma "nuclease artificial", reduzindo o oxigénio e gerando radicais livres que atacam os açúcares desoxirribose na espinha dorsal do DNA, resultando em quebras de cadeia simples e dupla. A especificidade da clivagem ocorre preferencialmente em sequências de DNA ricas em guanina e timina (5'-GPy-3'). Além do dano direto ao DNA, a bleomicina também induz a libertação de citocinas pró-inflamatórias e pode causar dano ao endotélio vascular. A célula carece de uma enzima eficiente para reparar este tipo específico de lesão (uma lacuna de base), o que leva à acumulação de danos e à morte celular, particularmente em células que se dividem rapidamente e em células em fase G2 do ciclo celular.
A indicação mais emblemática da bleomicina é no regime ABVD (Doxorrubicina, Bleomicina, Vimblastina, Dacarbazina) para o linfoma de Hodgkin em estádios avançados, onde contribui para as altas taxas de cura. É igualmente fundamental no tratamento de tumores de células germinativas (câncer de testículo), em combinação com etoposido e cisplatina (regime BEP). Também é utilizada como agente esclerosante no manejo de derrames pleurais malignos (pleurodese), devido à sua capacidade de induzir inflamação e fibrose pleural.
A toxicidade mais temida e dose-limitante da bleomicina é a fibrose pulmonar intersticial, uma complicação idiosincrática, cumulativa e potencialmente fatal. O risco aumenta com a dose cumulativa total (especialmente acima de 400 unidades), idade avançada, doença renal (a bleomicina é eliminada renalmente), exposição prévia à radioterapia torácica e administração de oxigénio suplementar em altas concentrações. O mecanismo envolve dano oxidativo directo às células endoteliais e epiteliais alveolares, seguido de uma resposta fibrótica excessiva. Os sintomas incluem tosse seca, dispneia e estertores crepitantes. A função renal deve ser monitorizada e a dose cumulativa total nunca deve ser excedida. Outras toxicidades incluem reações de hipersensibilidade (febre, calafrios), alterações cutâneas (hiperpigmentação, eritema, esclerose, ulcerações), alopecia e raramente, fenómeno de Raynaud. A ausência de mielossupressão significativa é a sua grande vantagem, permitindo a sua combinação com outros agentes sem sobreposição de toxicidade medular. O uso da bleomicina exige, portanto, uma vigilância ativa para sintomas pulmonares e uma gestão muito criteriosa da dose cumulativa e dos fatores de risco associados.
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