Capecitabina: O Profármaco Oral do 5-FU

 Capecitabina:
O Profármaco Oral do 5-FU


A capecitabina representa um avanço significativo na administração do 5-fluorouracilo, oferecendo a conveniência da via oral e uma ativação enzimática que visa, em parte, a seletividade tumoral. Quimicamente, é um profármaco do 5-FU, desenhado para ser absorvido intacto pelo trato gastrointestinal e subsequentemente convertido em 5-FU ativo através de uma cascata enzimática de três passos, sendo o último passo catalisado pela timidina fosforilase (TP), uma enzima frequentemente superexpressa em vários tipos de células tumorais.

A farmacocinética da capecitabina foi projetada para mimetizar a infusão contínua de 5-FU. Após a administração oral, é rapidamente absorvida no intestino e sofre uma primeira conversão hepática pela enzima carboxilesterase a 5'-deoxi-5-fluorocitidina (5'-DFCR). Esta é subsequentemente convertida por uma citidina desaminase (presente no fígado e também em alguns tecidos tumorais) a 5'-deoxi-5-fluorouridina (5'-DFUR). O passo final e farmacologicamente mais relevante é a conversão do 5'-DFUR a 5-FU ativo. Esta reação é catalisada pela enzima timidina fosforilase (TP), também conhecida como fator de ativação de plaquetas derivado de endotélio (PD-ECGF). Níveis mais elevados de atividade da TP têm sido demonstrados em vários tumores (colorretal, gástrico, mamário) em comparação com o tecido sadio adjacente, o que teoricamente poderia levar a uma libertação preferencial de 5-FU no interior do tumor, aumentando a seletividade e reduzindo a toxicidade sistêmica. No entanto, a TP também está presente no fígado e em outros tecidos normais, limitando este grau de seletividade na prática clínica.

A capecitabina é aprovada e amplamente utilizada no tratamento do câncer de mama metastático (em monoterapia ou em combinação com docetaxel) e no câncer colorretal metastático (em monoterapia ou, mais comumente, em combinação com oxaliplatina no regime XELOX/CAPOX). No cenário adjuvante, o regime CAPOX é uma alternativa eficaz e conveniente ao FOLFOX para o câncer de cólon estágio III. Também tem indicação no câncer gástrico metastático. A sua administração é realizada em ciclos de 14 dias de tratamento seguidos de 7 dias de descanso, permitindo a recuperação dos tecidos normais, particularmente da mucosa intestinal.

O perfil de toxicidade da capecitabina é semelhante ao do 5-FU administrado por infusão contínua, embora com algumas particularidades. A síndrome mão-pé (eritrodisestesia palmoplantar) é a toxicidade dose-limitante mais característica, apresentando-se como eritema, edema, dormência, descamação e dor nas palmas das mãos e plantas dos pés. A diarreia é também uma toxicidade gastrointestinal comum e potencialmente grave. Outros efeitos incluem mucosite, fadiga, hiperbilirrubinemia (assintomática na maioria dos casos) e mielossupressão (principalmente neutropenia, menos comum que com 5-FU IV). Tal como com o 5-FU, a deficiência da enzima DPD é um fator de risco crítico para toxicidade grave (diarreia, neutropenia, síndrome mão-pé de alto grau) e deve ser considerada na avaliação pré-tratamento. A capecitabina proporciona uma melhoria significativa na qualidade de vida relacionada com o tratamento devido à sua administração oral, tornando a quimioterapia possível em regime ambulatorial completo, sem a necessidade de cateteres venosos centrais ou bombas de infusão, embora exija uma adesão rigorosa e educação do paciente sobre o reconhecimento e manejo precoce das suas toxicidades.

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