Cisplatina:
A Pedra Angular Revolucionária
A cisplatina, ou cis-diaminodicloroplatina(II), é o protótipo e o agente mais potente da sua classe. Sua introdução clínica nos anos 1970, após superar ceticismo inicial devido à sua nefrotoxicidade pronunciada, alterou para sempre o prognóstico de várias neoplasias, estabelecendo novos paradigmas de curabilidade com quimioterapia.
Farmacologicamente, a cisplatina distingue-se pela sua rápida reatividade. Os íons cloreto como ligantes de saída (concentração -100 mM no plasma) mantêm a molécula relativamente neutra durante a circulação. No interior celular, onde a concentração de cloreto é baixa (4-20 mM), ocorre a aquação, formando espécies catiónicas altamente reativas que atacam o DNA. Esta reatividade confere uma potência citotóxica excepcional, mas também é a raiz da sua toxicidade característica. A cisplatina possui uma farmacocinética complexa, com uma fase inicial de distribuição rápida e uma fase terminal de eliminação lenta, refletindo a ligação covalente a proteínas teciduais. A excreção é predominantemente renal.
O espetro de atividade antineoplásica da cisplatina é amplo e fundamental em regimes curativos. Ela é a base do tratamento do câncer de testículo (em combinação com etoposido e bleomicina – esquema BEP), atingindo taxas de cura superiores a 90% nas doenças localizadas. Em câncer de ovário, regimes com cisplatina ou carboplatina seguidos de cirurgia de citorredução representam o padrão-ouro. No câncer de pulmão de não pequenas células, combinações com pemetrexede ou gencitabina são opções de primeira linha, e no de pequenas células, com etoposido. É também essencial no tratamento de carcinomas de cabeça e pescoço (com 5-fluorouracil ou cetuximabe), bexiga (no contexto neoadjuvante ou metastático) e colo do útero.
O perfil de toxicidade da cisplatina é notório e requer uma gestão clínica rigorosa e proativa. A nefrotoxicidade é a dose-limitante clássica, mediada por dano oxidativo e inflamatório nos túbulos proximais. A sua prevenção baseia-se na hidratação vigorosa com fluidos intravenosos e manitol, garantindo diurese adequada antes, durante e após a infusão. A neurotoxicidade (principalmente periférica, com parestesias e perda vibratória em "stocking-glove") é cumulativa e pode ser incapacitante. A ototoxicidade (perda auditiva de alta frequência, tinnitus) é irreversível. Náuseas e vómitos agudos são intensos, mas hoje controláveis com antagonistas 5-HT3 e NK1. Também causa mielossupressão moderada e distúrbios eletrolíticos (hipomagnesemia, hipocalemia). A administração exige infraestrutura e monitorização, limitando seu uso ambulatorial. Apesar destes desafios, a cisplatina mantém um lugar insubstituível devido à sua potência não replicada por seus análogos menos tóxicos.
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