A leuprorrelina (ou leuprolide) é um análogo sintético do hormônio libertador de gonadotrofinas (GnRH) e o agente mais utilizado para induzir castração médica (ou supressão androgênica) no tratamento do câncer de próstata. O seu mecanismo de ação é baseado na modulação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Quando administrada de forma contínua (em oposição ao pulso fisiológico), a leuprorrelina liga-se e satura os receptores de GnRH na hipófise anterior. Inicialmente, isto provoca uma estimulação aguda (flare-up), levando a um aumento transitório da secreção de hormona luteinizante (LH) e hormona folículo-estimulante (FSH) e, consequentemente, a um aumento dos níveis séricos de testosterona nas primeiras 1-2 semanas. No entanto, com a estimulação contínua, os receptores tornam-se dessensibilizados e internalizados, resultando numa profunda supressão da secreção de LH e FSH. Isto, por sua vez, leva à inibição da produção de testosterona pelas células de Leydig testiculares, alcançando níveis de castração (testosterona < 50 ng/dL, e idealmente < 20 ng/dL) de forma sustentada.
A leuprorrelina é a base da terapia de supressão androgênica para praticamente todas as fases do câncer de próstata avançado ou de alto risco. É usada em câncer de próstata localmente avançado ou de alto risco como adjuvante à radioterapia; em câncer de próstata metastático hormônio-sensível (mHSPC) como terapia isolada ou em combinação com outros agentes (docetaxel, abiraterona, enzalutamida, apalutamida); e no câncer de próstata resistente à castração (CRPC) para manter os níveis de testosterona baixos. Está disponível em formulações de libertação prolongada (depósito) que permitem administrações mensais, trimestrais, semestrais ou até anuais, melhorando significativamente a conveniência.
Os efeitos adversos da leuprorrelina são consequência direta da privação androgênica e são semelhantes aos da orquiectomia. Incluem a síndrome do flare-up inicial (que pode causar piora transitória de sintomas como dor óssea ou obstrução urinária em pacientes com elevada carga tumoral, sendo muitas vezes mitigada com um antiandrógeno nas primeiras semanas), fogachos, perda da libido e disfunção erétil, fadiga, perda de massa muscular e ganho de massa gorda, ginecomastia, alterações do humor e declínio cognitivo. Efeitos metabólicos a longo prazo são significativos e incluem osteoporose/osteopenia com aumento do risco de fraturas, anemia, alterações do perfil lipídico e resistência à insulina. O manejo destes pacientes requer uma abordagem multidisciplinar, incluindo exercício físico, monitorização da densidade óssea, manejo cardiovascular e suporte psicológico. A leuprorrelina permanece como a pedra angular da terapia hormonal para o câncer de próstata, sendo o agente mais comum para estabelecer e manter a castração, sobre a qual outras terapias mais recentes são adicionadas.
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