Metotrexato Intratecal: Quimioterapia no Compartimento Liquórico

 Metotrexato Intratecal
Quimioterapia no Compartimento Liquórico


O metotrexato intratecal não é um radiofármaco, mas sim uma modalidade de quimioterapia regional administrada diretamente no líquido cefalorraquidiano (LCR) para tratamento e profilaxia de doenças neoplásicas do sistema nervoso central (SNC). Esta via de administração contorna a barreira hematoencefálica, que impede a penetração adequada do metotrexato quando administrado por via sistêmica, permitindo alcançar concentrações terapêuticas no LCR com doses relativamente baixas e toxicidade sistêmica mínima. O metotrexato é um antimetabólito antagonista do ácido fólico que inibe competitivamente a enzima diidrofolato redutase, bloqueando a síntese de DNA e levando à morte celular.

As principais indicações do metotrexato intratecal são a profilaxia e tratamento da meningite leucêmica em pacientes com leucemia linfoblástica aguda (LLA), particularmente em crianças e adultos jovens, e o tratamento da linfomatose meníngea em linfomas não-Hodgkin de alto grau com risco de envolvimento do SNC. Também é utilizado no tratamento de metástases leptomeníngeas de tumores sólidos, embora com eficácia mais limitada. A via intratecal pode ser administrada por punção lombar ou através de reservatório de Ommaya (um dispositivo implantado no crânio com cateter ventricular), que permite acesso mais fácil e repetido ao LCR. A dose usual varia de 12 a 15 mg, administrada 1-2 vezes por semana, dependendo do protocolo e da resposta clínica.

A farmacocinética intratecal é complexa e depende do fluxo liquórico e da circulação do LCR. O metotrexato administrado por esta via distribui-se por todo o neuroeixo, com concentrações máximas atingidas em poucas horas e meia-vida de aproximadamente 12-24 horas no LCR. A eliminação ocorre por fluxo bulk do LCR para a circulação sistêmica, seguida de excreção renal. Por esta razão, a função renal deve ser monitorizada, pois a insuficiência renal pode prolongar a exposição sistêmica e aumentar a toxicidade, mesmo com administração intratecal.

O perfil de toxicidade do metotrexato intratecal é distinto e potencialmente grave. A toxicidade neurológica aguda pode manifestar-se durante ou imediatamente após a administração, com cefaleia, náuseas, vômitos, tontura, sonolência e, raramente, convulsões ou reações anafilactoides. A toxicidade subaguda ocorre dias a semanas após o tratamento, manifestando-se como mielopatia transversa (fraqueza progressiva, parestesias, disfunção esfincteriana), encefalopatia ou síndrome cerebelar. A leucoencefalopatia é uma complicação tardia e grave, associada a doses cumulativas elevadas, especialmente quando combinada com radioterapia craniana. Fatores de risco incluem idade avançada, disfunção renal, hidrocefalia, radioterapia craniana prévia ou concomitante, e administração concomitante de outros agentes neurotóxicos. A aracnoidite química pode ocorrer, manifestando-se com febre, cefaleia, rigidez de nuca e pleocitose liquórica. A mielossupressão sistêmica é geralmente leve, mas pode ocorrer em pacientes com disfunção renal ou com administração concomitante de metotrexato sistêmico. A profilaxia com ácido folínico (leucovorina) por via sistêmica é frequentemente administrada para "resgatar" as células normais da medula óssea e do trato gastrointestinal da exposição ao metotrexato que atinge a circulação sistêmica após a administração intratecal. O manejo das toxicidades requer suspensão imediata do fármaco, suporte clínico e, em casos graves, medidas para remoção do fármaco do LCR, como drenagem liquórica ou administração de carboxipeptidase G2 intratecal.



Comentários