Terapêutica Farmacológica
da Hemofilia
O tratamento farmacológico da hemofilia passou por uma revolução paradigmática na última década, evoluindo das terapias de reposição de fator para estratégias não-fator e curativas que transformaram o prognóstico da doença. A hemofilia A e B são distúrbios hemorrágicos hereditários ligados ao cromossomo X, decorrentes da deficiência dos fatores de coagulação VIII (FVIII) e IX (FIX), respectivamente, resultando em sangramentos espontâneos e hemartroses que levam à artropatia progressiva .
A base histórica do tratamento sempre foram as terapias de reposição de fator, inicialmente com produtos de meia-vida padrão (SHL) e, posteriormente, com produtos de meia-vida estendida (EHL), que utilizam tecnologias como PEGilação e fusão com Fc para prolongar a circulação dos fatores, permitindo administração intravenosa menos frequente . O mais recente avanço nessa classe é o efanesoctocog alfa, um FVIII recombinante de meia-vida ultralonga aprovado em 2023 para profilaxia semanal em hemofilia A, embora ainda requeira acesso venoso e mantenha o risco de desenvolvimento de inibidores .
A primeira grande disrupção veio com as terapias não-fator. O emicizumabe, um anticorpo monoclonal biespecífico aprovado em 2017, revolucionou o tratamento da hemofilia A ao mimetizar a função do FVIII, ligando-se simultaneamente ao FIXa e ao FX, restaurando a hemostasia independentemente da presença de inibidores . Administrado por via subcutânea, com esquemas semanais a mensais, reduz em mais de 90% os episódios hemorrágicos e foi recentemente incorporado ao SUS para crianças de 0 a 6 anos . O fitusiran, aprovado em março de 2025, representa uma estratégia inovadora baseada em RNA de interferência: ao reduzir a produção hepática de antitrombina, reequilibra o sistema hemostático e é eficaz tanto na hemofilia A quanto B, com ou sem inibidores, também por via subcutânea . Outras abordagens não-fator incluem os inibidores da via do fator tecidual (TFPI) , como concizumabe e marstacimabe, que promovem hemostasia ao bloquear esse regulador negativo da coagulação .
O ápice da evolução terapêutica são as terapias gênicas, que oferecem a perspectiva de cura funcional com dose única. O etranacogene dezaparvovec, para hemofilia B, demonstrou em análise final de 5 anos redução de 63% na taxa de sangramento anualizada e expressão sustentada de FIX (média de 36,1 UI/dL), com redução de 96% no consumo de fator exógeno . O fidanacogene elaparvovec também mostrou melhora significativa na qualidade de vida aos 12 meses, com 56% dos pacientes relatando melhora global acentuada . Dados de seguimento de 9 anos apresentados no EAHAD 2026 confirmam segurança e benefício clínico duradouro . Este arsenal terapêutico, que inclui reposição, não-fatores e terapia gênica, permite hoje individualizar o tratamento conforme perfil genético, presença de inibidores e estilo de vida, aproximando-se do objetivo de zero sangramentos e qualidade de vida equiparável à população geral .
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