Terapias Hormonais Oncológicas: Princípios da Dependência Endócrina no Câncer

 Terapias Hormonais Oncológicas
Princípios da Dependência Endócrina no Câncer


A terapia hormonal oncológica constitui um dos pilares mais antigos e eficazes do tratamento sistêmico do câncer, fundamentada no conceito de dependência hormonal de certas neoplasias. Diferentemente da quimioterapia citotóxica, que ataca células em rápida proliferação de forma genérica, a terapia hormonal atua de maneira mais seletiva, interferindo nos sinais de crescimento transmitidos por hormônios esteroides (estrogênio, progesterona e andrógenos) às células malignas. Esta abordagem é possível porque alguns tumores, notadamente os de mama e próstata, frequentemente retêm a expressão de receptores hormonais funcionais (Receptor de Estrogênio - RE, Receptor de Progesterona - RP e Receptor de Andrógeno - RA). A ligação do hormônio ao seu receptor ativa uma cascata de sinalização intracelular que promove a proliferação celular, a sobrevivência e a progressão tumoral. O objetivo primordial da terapia hormonal é, portanto, privar o tumor deste estímulo proliferativo essencial.

Os mecanismos de ação podem ser categorizados em quatro estratégias principais, aplicáveis tanto no câncer de mama quanto no de próstata, mas com agentes farmacológicos distintos. A primeira é a supressão da produção hormonal endógena. Nos homens, isso é alcançado através de análogos do hormônio libertador das gonadotrofinas (GnRH), como a leuprorrelina, que inibem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, levando à supressão da produção de testosterona (castração médica). Nas mulheres na pós-menopausa, os inibidores da aromatase (anastrozol, letrozol, exemestano) bloqueiam a enzima aromatase, responsável pela conversão de andrógenos em estrogênios nos tecidos periféricos. A segunda estratégia é o bloqueio direto do receptor na célula tumoral. No câncer de mama, os moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs), como o tamoxifeno, e os degradadores seletivos do receptor de estrogênio (SERDs), como o fulvestranto, ocupam o RE, impedindo a ativação pelo estrogênio. No câncer de próstata, os antagonistas do receptor de andrógeno (bicalutamida, enzalutamida) atuam de forma análoga, bloqueando o RA.

A terceira estratégia, mais específica para o câncer de próstata, é a inibição da síntese de andrógenos em todas as fontes (gónadas, glândulas adrenais e no próprio tumor), utilizando agentes como a abiraterona. Por fim, historicamente, utilizava-se a ablação cirúrgica da fonte de produção hormonal (ooforectomia e orquiectomia), ainda eficaz, mas largamente substituída pelas alternativas médicas. A eficácia destas terapias é profunda, transformando doenças avançadas em condições crónicas por anos e reduzindo drasticamente o risco de recorrência no cenário adjuvante. No entanto, quase invariavelmente, os tumores desenvolvem mecanismos de resistência, como mutações no receptor hormonal, ativação de vias de sinalização alternativas ou a conversão para um fenótipo independente de hormônios (câncer de mama triplo-negativo ou câncer de próstata neuroendócrino), exigindo a sequência para outras linhas de tratamento.

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