O topotecano é um análogo semissintético e hidrossolúvel da camptotecina, que difere do irinotecano por ser ativo por si só, não requerendo ativação enzimática. Esta propriedade simplifica a sua farmacocinética, embora a sua estabilidade na forma lactona ativa (a forma que inibe a Topo I) seja dependente do pH. Tal como os outros inibidores da Topo I, o topotecano estabiliza o complexo covalente enzima-DNA, levando à formação de quebras duplas de cadeia quando a maquinaria de replicação encontra estes complexos bloqueados. A sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica em graus variáveis, dependendo da formulação e dose, amplia o seu espectro de aplicação.
O espectro clínico do topotecano é distinto, com indicações estabelecidas em tumores sólidos ginecológicos e em síndromes mielodisplásicos. É um agente de segunda linha aprovado para o carcinoma de ovário após falha de terapia baseada em platina, onde pode ser usado em monoterapia ou em combinação com platina em certos cenários de recorrência sensível. No carcinoma do colo do útero recorrente ou metastático, a sua combinação com o bevacizumabe (um antiangiogénico) demonstrou um benefício significativo na sobrevida global, estabelecendo um novo padrão de cuidado. Além disso, o topotecano tem um papel crucial no tratamento de neoplasias hematológicas, particularmente na leucemia mieloide aguda (LMA) refratária ou em recaída, e na síndrome mielodisplásica (SMD) avançada, frequentemente em combinação com citarabina.
A toxicidade dose-limitante predominante do topotecano é a mielossupressão, particularmente uma neutropenia profunda e de início precoce (nadir por volta do dia 8-11). A monitorização hematológica rigorosa é essencial, e o uso de fatores de crescimento (G-CSF) é frequentemente necessário, especialmente em regimes de dose intensiva. A trombocitopenia também é comum. Ao contrário do irinotecano, a diarreia significativa é menos frequente e geralmente de menor gravidade, embora possa ocorrer. Outros efeitos adversos incluem astenia intensa, náuseas/vômitos, alopecia e, menos comumente, rash cutâneo. O topotecano está disponível para administração intravenosa e, em algumas regiões, em formulação oral para maior conveniência em tratamentos de manutenção ou paliativos. A sua posição terapêutica é bem definida, sendo uma opção valiosa em cenários específicos de recaída de câncer de ovário e colo do útero, e uma ferramenta importante no arsenal do hematologista para o tratamento de doenças mieloides agressivas.
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