Vincristina:
O Alcaloide da Vinca com Neurotoxicidade Limítrofe
A vincristina é um alcaloide da vinca extraído da pervinca-de-Madagascar (Catharanthus roseus) e é um dos agentes mais potentes da sua classe, com um papel absolutamente central no tratamento de várias neoplasias hematológicas e tumores sólidos pediátricos. O seu mecanismo de ação é típico dos alcaloides da vinca: liga-se com alta afinidade à β-tubulina livre, inibindo a polimerização dos microtúbulos. Esta ação leva à desmontagem do fuso mitótico, parada na metáfase e morte celular apoptótica. A vincristina também interfere com funções dos microtúbulos em interfase, como o transporte axonal, o que explica a sua neurotoxicidade proeminente.
A vincristina é notória pelo seu estreito índice terapêutico, onde a dose eficaz está muito próxima da dose tóxica, sendo a neurotoxicidade o fator limitante. É um componente indispensável de regimes curativos para a leucemia linfoblástica aguda (LLA) pediátrica e do adulto (em combinação com prednisona, asparaginase e uma antraciclina). É também fundamental em protocolos para linfomas (ex.: CHOP, R-CHOP), tumores pediátricos (tumor de Wilms, neuroblastoma, rabdomiossarcoma) e mieloma múltiplo (no regime VAD). A sua administração é tipicamente semanal, por via intravenosa, com cuidado extremo para evitar extravasamento, pois é um vesicante potente que causa necrose tecidual grave.
A neurotoxicidade é a toxicidade dose-limitante dominante e quase universal. Manifesta-se principalmente como uma neuropatia sensório-motora periférica cumulativa, com parestesias, dor, perda de reflexos tendinosos profundos e, em casos graves, fraqueza muscular (incluindo pé-drop e comprometimento da motricidade fina). A neuropatia autonómica pode causar íleo paralítico (constipação grave e dor abdominal), hipotensão ortostática e disfunção da bexiga. Outros efeitos neurotóxicos incluem paralisia dos nervos cranianos, síndrome de SIADH (secreção inadequada de hormona antidiurética) e, raramente, encefalopatia. Curiosamente, a vincristina causa pouca mielossupressão, o que a torna um agente combinatório ideal com outros fármacos hematotóxicos. Outras toxicidades incluem alopecia, síndrome de libertação de antidiurético (SIADH), e extravasamento vesicante. O manejo requer vigilância neurológica ativa, ajustes de dose ou atrasos no tratamento conforme a toxicidade, e medidas profiláticas para a constipação. A sua eficácia em regimes curativos é tal que, apesar da sua toxicidade significativa, o seu lugar na oncologia permanece insubstituível.
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