Analgésicos na geriatria

Analgésicos na Geriatria



O envelhecimento populacional, fenômeno demográfico de proporções globais, impõe à farmacologia o desafio de compreender como o organismo senescente responde aos analgésicos de forma radicalmente distinta do adulto jovem. A população idosa, além de consumir parcela significativa dos analgésicos comercializados, apresenta particularidades fisiológicas, patológicas e farmacológicas que tornam o manejo da dor um exercício de equilíbrio entre eficácia e segurança, onde o risco de iatrogenia é permanentemente elevado. 

As alterações farmacocinéticas no idoso são múltiplas e clinicamente relevantes. A absorção gastrointestinal pode estar reduzida por hipocloridria e diminuição da motilidade, embora a extensão total da absorção raramente seja comprometida. A distribuição altera-se pelo aumento proporcional da massa gordurosa e redução da água corporal total: fármacos lipossolúveis como benzodiazepínicos apresentam maior volume de distribuição e meia-vida prolongada; fármacos hidrossolúveis, maior concentração inicial. A redução da albumina sérica aumenta a fração livre de fármacos altamente ligados a proteínas, como anti-inflamatórios não esteroidais, potencializando seus efeitos e toxicidade. 

O metabolismo hepático declina progressivamente, com redução da massa hepática e do fluxo sanguíneo esplâncnico. A atividade das enzimas do citocromo P450, particularmente CYP3A4 e CYP2D6, diminui, prolongando a meia-vida de fármacos metabolizados por estas vias. A excreção renal sofre o declínio mais significativo e previsível: a taxa de filtração glomerular reduz-se aproximadamente 1% ao ano a partir dos 40 anos, comprometendo a eliminação de fármacos como morfina (cujo metabólito ativo M6G acumula-se), gabapentina, pregabalina e anti-inflamatórios. 

A farmacodinâmica também se altera. Idosos apresentam maior sensibilidade a determinados fármacos mesmo com concentrações plasmáticas terapêuticas. O risco de depressão do sistema nervoso central com opioides e gabapentinoides é amplificado. A susceptibilidade a efeitos anticolinérgicos (sedação, constipação, retenção urinária, confusão) é maior. A resposta pressórica a anti-inflamatórios é exacerbada, com maior risco de descompensação de hipertensão e insuficiência cardíaca. 

A polifarmácia, definida como uso concomitante de cinco ou mais medicamentos, afeta mais de 40% dos idosos brasileiros, aumentando exponencialmente o risco de interações medicamentosas. Cada fármaco adicional incrementa em cerca de 10% a probabilidade de eventos adversos, e interações clinicamente significativas são praticamente universais em pacientes com mais de dez medicamentos. O fenômeno da prescrição em cascata, onde um efeito adverso é interpretado como nova condição clínica e tratado com mais fármacos, é particularmente frequente nesta população. 

Os analgésicos de escolha em idosos devem ser selecionados criteriosamente. O paracetamol, nas doses de até 3 gramas diárias (reduzidas em relação aos 4 gramas do adulto jovem pela menor reserva funcional hepática), é primeira linha para dor leve a moderada, particularmente musculoesquelética, por seu perfil de segurança favorável. Doses superiores, no entanto, associam-se a risco de hepatotoxicidade mesmo em faixas consideradas terapêuticas para adultos mais jovens. 

Os anti-inflamatórios não esteroidais devem ser utilizados com extrema cautela em idosos, pela menor reserva funcional renal, maior prevalência de hipertensão, insuficiência cardíaca e história de úlcera péptica. Quando inevitáveis, recomenda-se a menor dose eficaz pelo menor período necessário, preferencialmente com proteção gástrica por inibidores da bomba de prótons. O risco cardiovascular, particularmente com diclofenaco e inibidores seletivos da COX-2, deve ser considerado na escolha. 

Os opioides, quando indicados para dor moderada a grave, exigem titulação cautelosa iniciando com doses 30% a 50% inferiores às utilizadas em adultos jovens. A constipação induzida por opioides, particularmente problemática em idosos com motilidade intestinal já reduzida, deve ser sistematicamente prevenida com laxantes. O risco de quedas, amplificado por tontura e sedação, requer monitorização e orientação. 

Os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), amplamente utilizados para dor neuropática, acumulam-se na insuficiência renal, exigindo ajuste posológico baseado na depuração de creatinina. Seus efeitos adversos de tontura e sedação aumentam significativamente o risco de quedas, particularmente preocupante em idosos com osteoporose ou fragilidade. 

Os antidepressivos com ação analgésica, como amitriptilina e duloxetina, são eficazes para dor neuropática. A amitriptilina, no entanto, apresenta efeitos anticolinérgicos significativos que limitam seu uso em idosos, preferindo-se nortriptilina ou duloxetina quando possível. 

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta particular para a população idosa. Pacientes com múltiplas comorbidades, polimedicados e com maior vulnerabilidade a efeitos adversos podem adquirir analgésicos sem orientação qualificada, expondo-se a riscos de interações, toxicidade por acúmulo e uso de fármacos inapropriados. Defender o uso racional de analgésicos em geriatria é assegurar que cada prescrição considere a função renal, o perfil de interações, a fragilidade do paciente e a relação benefício-risco individualizada, protegendo aqueles que mais se beneficiariam do cuidado qualificado e mais sofreriam com sua ausência. 



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