A enxaqueca, ou migrânea, é um distúrbio neurológico crônico e episódico que afeta cerca de 18% das mulheres e 6% dos homens, manifestando-se tipicamente da juventude até a meia-idade. Caracteriza-se por crises de cefaleia moderada a grave, frequentemente unilateral, pulsátil, com duração de 4 a 72 horas, associada a náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. A aura, complexo de sintomas neurológicos reversíveis que precede a dor, ocorre em apenas 15% a 30% dos pacientes, sendo patognomônica da enxaqueca quando presente.
Fisiopatologia e Fatores Desencadeantes
Considera-se a enxaqueca uma síndrome neurovascular. O processo envolve ativação de núcleos do tronco encefálico, hiperexcitabilidade cortical e liberação de neuropeptídeos como o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) no sistema trigeminovascular, gerando inflamação dolorosa nos vasos cranianos e na dura-máter. Os principais desencadeantes incluem estresse, privação de sono, alterações hormonais (especialmente a flutuação estrogênica na menstruação), jejum prolongado, ingestão de vinho tinto e estímulos sensoriais excessivos.
Tratamento da Crise Aguda
A abordagem deve ser individualizada, priorizando tratamentos específicos em vez de analgésicos inespecíficos. Os triptanos, agonistas dos receptores 5HT1B/1D, permanecem como terapia de primeira linha para crises moderadas a graves. O desenvolvimento recente de ditanos, agonistas do receptor 5HT1F, oferece alternativa que contorna os riscos vasculares associados aos triptanos .
Para o manejo intravenoso em serviços de emergência, diretrizes atualizadas da American Headache Society estabelecem recomendações claras: proclorperazina IV e bloqueios do nervo occipital maior devem ser obrigatoriamente oferecidos a pacientes elegíveis (nível A). Cetoprofeno IV, cetorolaco IV, metoclopramida IV e sumatriptana subcutânea devem ser oferecidos quando apropriado (nível B). Opioides como hidromorfona não devem ser oferecidos devido à eficácia inferior e maior risco de eventos adversos (nível A - não oferecer), e paracetamol IV também não é recomendado.
Tratamento Preventivo e Novas Perspectivas
A prevenção é indicada para pacientes com crises frequentes (≥4 dias por mês) ou incapacitantes. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP (eptinezumabe, galcanezumabe) revolucionaram o manejo da enxaqueca crônica, demonstrando eficácia superior em redução de dias de dor e melhora da qualidade de vida. OnabotulinumtoxinA também é opção estabelecida para enxaqueca crônica. Anticonvulsivantes (topiramato, valproato), betabloqueadores e amitriptilina permanecem como alternativas eficazes.
Novos alvos terapêuticos emergem, incluindo antagonistas do PACAP (pituitary adenylate cyclase activating polypeptide) e moduladores de canais iônicos, indicando movimento em direção à medicina de precisão no tratamento da enxaqueca.
Implicações para o Uso Racional e a PL 2158/23
O tratamento racional da enxaqueca exige diagnóstico preciso, individualização terapêutica e, fundamentalmente, orientação profissional qualificada. O risco de cronificação por uso excessivo de medicamentos (cefaleia por uso excessivo) é real e frequentemente subestimado. A PL 2158/23, ao propor a instalação de farmácias em supermercados, acende alerta para pacientes com enxaqueca que podem adquirir quantidades crescentes de analgésicos sem qualquer barreira, aprofundando o ciclo de cronificação e dependência. O Ministério da Saúde alerta que medicamentos, mesmo isentos de prescrição, possuem riscos, e a enxaqueca exemplifica como o uso indiscriminado transforma alívio temporário em problema crônico. Defender o tratamento racional da enxaqueca é assegurar que o acesso a medicamentos específicos e eficazes seja acompanhado da orientação que permite seu uso seguro e da vigilância contra a iatrogenia.
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