Naproxeno

 Naproxeno


O naproxeno, derivado do ácido propiônico, é um anti-inflamatório não esteroidal (AINE) amplamente utilizado no Brasil e no mundo, reconhecido por sua potente atividade analgésica, antitérmica e anti-inflamatória. Diferencia-se de outros AINEs por sua farmacocinética singular, particularmente sua longa meia-vida, e por um perfil de risco cardiovascular considerado mais favorável, o que o torna opção terapêutica relevante para condições que exigem tratamento contínuo . Compreender suas propriedades, indicações e riscos é fundamental para o uso racional deste fármaco. 

Mecanismo de Ação e Farmacologia 

O naproxeno atua inibindo de forma não seletiva as enzimas ciclooxigenases COX-1 e COX-2, reduzindo a síntese de prostaglandinas, mediadores fundamentais da dor, febre e inflamação. Estudos complementares sugerem que seus efeitos anti-inflamatórios também podem envolver a inibição de enzimas lisossomais, como beta-glucuronidase, lisozima e proteases ácidas em tecidos inflamados. 

Sua farmacocinética é notável: apresenta absorção oral rápida e completa, com pico de concentração plasmática em 1 a 2 horas para a formulação de naproxeno sódico, que é mais rapidamente absorvido. A característica mais distintiva é sua longa meia-vida de aproximadamente 13 horas, que permite administração a cada 12 horas, favorecendo a adesão ao tratamento em condições crônicas. O fármaco é extensivamente ligado à albumina plasmática (mais de 99%) e metabolizado no fígado por desmetilação e conjugação, sendo excretado quase inteiramente na urina como fármaco inalterado ou metabólitos. 

Indicações Terapêuticas 

naproxen é indicado para o alívio dos sinais e sintomas de osteoartrite, artrite reumatoide e espondilite anquilosante em adultos, podendo ser utilizado por até 6 meses. É também empregado no tratamento de gota aguda (dose inicial de ataque) e dismenorreia primária, com eficácia documentada na inibição seletiva de preparações microsomais uterinas. 

Em pediatria, é utilizado no manejo da artrite idiopática juvenil poliarticular, na dose aproximada de 10 mg/kg/dia dividida em duas tomadas. Deve-se observar que formulações líquidas são mais apropriadas para crianças com peso inferior a 50 kg . 

Perfil de Segurança e Efeitos Adversos 

O naproxeno, como todos os AINEs, apresenta riscos cardiovasculares e gastrointestinais significativos. A bula traz advertência em caixa sobre o aumento do risco de eventos trombóticos cardiovasculares graves, incluindo infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, que podem ser fatais. Este risco pode ocorrer precocemente no tratamento e aumentar com a duração do uso, sendo o fármaco contraindicado no cenário de cirurgia de revascularização miocárdica (CABG) . 

No entanto, evidências sugerem que o naproxeno apresenta perfil de risco cardiovascular mais favorável em comparação a outros AINEs. O formulário do NHS britânico indica que naproxeno (1 g/dia) está associado a menor risco trombótico, enquanto diretrizes internacionais o consideram a opção mais segura entre os AINEs para pacientes com risco cardiovascular. Estudo dinamarquês de 2025 com mais de 7 milhões de usuários demonstrou que iniciadores de ibuprofeno apresentaram taxa 18% maior de eventos vasculares maiores comparados a iniciadores de naproxeno. 

Os efeitos adversos gastrointestinais são frequentes: pirose, dor abdominal, náuseas, constipação, diarreia e dispepsia ocorrem em 1% a 10% dos pacientes. O risco de sangramento, ulceração e perfuração gastrointestinal, que pode ser fatal, é particularmente elevado em idosos e pacientes com história de úlcera péptica ou sangramento prévio. 

Outros efeitos adversos incluem cefaleia, tontura, sonolência, zumbido, edema, hipertensão, insuficiência cardíaca, toxicidade renal (nefrite intersticial, necrose papilar) e hepatotoxicidade. Reações cutâneas graves, incluindo síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, embora raras, podem ocorrer. 

Contraindicações e Populações Especiais 

O naproxeno é contraindicado em pacientes com hipersensibilidade conhecida ao fármaco ou a outros AINEs, história de asma, urticária ou reações alérgicas após uso de aspirina ou AINEs, e no cenário de CABG. 

Na gestação, seu uso deve ser evitado a partir de aproximadamente 20 semanas devido ao risco de disfunção renal fetal e oligoidrâmnio; após 30 semanas, é contraindicado pelo risco de fechamento prematuro do ducto arterioso. Em insuficiência renal moderada a grave e insuficiência hepática grave, seu uso deve ser evitado . A monitorização da função renal é recomendada em pacientes com desidratação, insuficiência cardíaca ou disfunção hepática. 

Implicações para o Uso Racional e a PL 2158/23 

O naproxeno, embora disponível em algumas apresentações como medicamento isento de prescrição em baixas doses, exemplifica a complexidade da terapêutica com AINEs. Seu perfil de risco cardiovascular mais favorável não elimina a necessidade de avaliação criteriosa: pacientes hipertensos, idosos, com doença renal ou história de úlcera requerem supervisão profissional. 

A PL 2158/23, ao propor a instalação de farmácias em supermercados, acende alerta sobre a banalização do acesso a fármacos como o naproxeno. O Ministério da Saúde alerta que medicamentos, mesmo isentos de prescrição, possuem riscos, e seu uso indiscriminado pode mascarar doenças graves, postergar diagnósticos e causar danos evitáveis. Defender o uso racional do naproxeno é assegurar que sua disponibilidade seja acompanhada de orientação profissional que considere a individualidade de cada paciente, sua função renal, risco cardiovascular, história gastrointestinal e medicações concomitantes, transformando um fármaco potencialmente perigoso em instrumento seguro de cuidado. 



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