Uso irracional de analgésicos

 Uso Irracional de Analgésicos


O uso irracional de analgésicos no Brasil constitui problema de saúde pública de magnitude preocupante, manifestando-se em múltiplas dimensões que vão desde a automedicação indiscriminada até a prescrição inadequada, passando pela dispensação sem orientação e pelo consumo baseado em crenças e informações equivocadas. Compreender as causas, manifestações e consequências deste fenômeno é condição indispensável para o desenvolvimento de estratégias efetivas de promoção do uso racional.

A automedicação com analgésicos é a face mais visível do problema. Estima-se que 90% da população brasileira já tenha se automedicado, e analgésicos estão entre os fármacos mais utilizados nesta prática. As motivações incluem: percepção de que se trata de medicamentos "simples" e "inofensivos", dificuldade de acesso a serviços de saúde, influência de familiares e amigos, propaganda, e desejo de alívio rápido sem "burocracia". As consequências vão desde o mascaramento de doenças graves até a ocorrência de eventos adversos evitáveis.

A polifarmácia com analgésicos é prática frequente, particularmente em idosos. A combinação de múltiplos AINEs, a associação de AINEs com paracetamol sem considerar doses cumulativas, e o uso concomitante de analgésicos com outros fármacos que interagem perigosamente são exemplos de irracionalidade que amplificam riscos sem benefício adicional. A prescrição em cascata, onde um efeito adverso de um analgésico (como hipertensão induzida por AINE) é tratado com outro fármaco, perpetua o ciclo de iatrogenia.

O uso de analgésicos para indicações não aprovadas ou sem evidência suficiente é outra manifestação do uso irracional. AINEs prescritos para dor crônica sem componente inflamatório significativo, opioides para cefaleia primária, e associações fixas de racionalidade questionável são exemplos que expõem pacientes a riscos sem benefício comprovado.

A duração inadequada do tratamento é problema transversal. Antibióticos utilizados por tempo insuficiente favorecem resistência bacteriana; analgésicos utilizados por tempo excessivo expõem a riscos sem necessidade. A cefaleia por uso excessivo de medicamentos (CUEM) exemplifica como o uso frequente de analgésicos para dor de cabeça pode cronificar a condição que se pretendia tratar, criando ciclo vicioso de difícil ruptura.

A desinformação sobre riscos é causa fundamental do uso irracional. Pacientes desconhecem que paracetamol em doses apenas moderadamente acima da terapêutica pode causar hepatotoxicidade fatal. Ignoram que AINEs, mesmo aqueles isentos de prescrição, podem causar sangramentos gastrointestinais, lesão renal e eventos cardiovasculares. Subestimam o potencial de dependência de opioides. Esta desinformação é alimentada pela percepção cultural de que medicamentos "comuns" são seguros e pela comunicação deficiente na dispensação.

As fontes de informação sobre analgésicos são frequentemente inadequadas. Familiares e amigos, balconistas de farmácia sem formação farmacêutica, propaganda e internet são as principais fontes consultadas pelos pacientes. A informação obtida nestes meios é frequentemente incompleta, imprecisa ou francamente equivocada, perpetuando práticas inadequadas.

Os determinantes sociais do uso irracional são significativos. Menor escolaridade associa-se a maior automedicação e menor compreensão de riscos. Menor renda limita acesso a serviços de saúde, empurrando para a automedicação. Moradores de áreas remotas dependem de farmácias como único ponto de acesso ao sistema de saúde, onde a dispensação substitui a consulta.

As consequências do uso irracional de analgésicos são mensuráveis em morbidade, mortalidade e custos. Milhares de hospitalizações anuais por sangramento digestivo, lesão renal aguda e hepatotoxicidade são atribuíveis ao uso inadequado de analgésicos. Centenas de mortes poderiam ser evitadas com uso racional. Os custos diretos destes eventos e os custos indiretos por perda de produtividade representam ônus significativo para o sistema de saúde e para a sociedade.

A prevenção do uso irracional exige abordagem multifacetada. Inclui educação da população desde a escola básica, formação adequada de profissionais de saúde, regulamentação eficaz da propaganda, fortalecimento da farmacovigilância e, fundamentalmente, garantia de acesso a serviços de saúde que tornem a automedicação desnecessária.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, introduz fator potencialmente agravante do uso irracional de analgésicos. A facilitação do acesso em ambientes com menor orientação profissional, a exposição em prateleiras que convidam à escolha autônoma e rápida, e a banalização da imagem do medicamento como produto de consumo comum tendem a normalizar práticas inadequadas. Defender o combate ao uso irracional é assegurar que o acesso a analgésicos seja sempre acompanhado da informação que permite seu uso seguro, e que a conveniência nunca se sobreponha à segurança.



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