Antialérgicos
segurança a longo prazo
A segurança do uso prolongado de anti-histamínicos é uma questão relevante, considerando que condições como rinite alérgica e urticária crônica frequentemente requerem tratamento contínuo por meses ou anos. Esta seção aborda as preocupações com o uso crônico de anti-histamínicos.
Os anti-histamínicos de primeira geração, quando usados cronicamente, apresentam riscos significativos. A sedação persistente compromete a qualidade de vida, o desempenho profissional e escolar, e aumenta o risco de acidentes de trânsito e quedas. Estudos epidemiológicos sugerem que o uso crônico de anti-histamínicos sedativos pode estar associado a declínio cognitivo acelerado em idosos, possivelmente por seus efeitos anticolinérgicos.
Os efeitos anticolinérgicos da primeira geração, boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva, são cumulativos quando associados a outros fármacos com ação anticolinérgica. A chamada "carga anticolinérgica" tem sido associada a aumento do risco de quedas, fraturas, delirium e demência em estudos observacionais. A contribuição dos anti-histamínicos de primeira geração para esta carga não é desprezível.
O ganho de peso, embora mais associado à cipro-heptadina (que tem efeito antagonista da serotonina, estimulando o apetite), pode ocorrer com outros anti-histamínicos de primeira geração por mecanismos não totalmente elucidados.
A taquifilaxia (perda de eficácia com uso contínuo) é descrita para alguns anti-histamínicos de primeira geração, exigindo aumento de dose ou troca de fármaco.
Os anti-histamínicos de segunda geração, por outro lado, têm excelente perfil de segurança para uso prolongado. Estudos com loratadina, desloratadina, fexofenadina e cetirizina por até 12 meses não demonstraram efeitos adversos significativos além dos observados em curto prazo. Não há evidências de toxicidade cumulativa, efeitos cognitivos ou carcinogenicidade.
A segurança cardiovascular dos anti-histamínicos de segunda geração foi extensivamente estudada após a retirada da terfenadina e astemizol do mercado. Loratadina, desloratadina, fexofenadina e cetirizina não prolongam significativamente o intervalo QT em doses terapêuticas, mesmo em estudos com doses suprafisiológicas. O risco de arritmias é praticamente inexistente.
O uso prolongado de anti-histamínicos em crianças merece atenção especial. Estudos de segurança a longo prazo são limitados, mas os dados disponíveis sugerem que anti-histamínicos de segunda geração são seguros quando usados nas doses recomendadas. A monitorização do crescimento e desenvolvimento é prudente.
Em gestantes, o uso prolongado de anti-histamínicos deve ser evitado sempre que possível. Estudos observacionais com loratadina e cetirizina não demonstraram aumento de malformações, mas os dados para uso no primeiro trimestre são limitados. O benefício do controle de sintomas alérgicos graves pode superar o risco teórico.
A segurança na lactação para uso prolongado é menos estudada. Anti-histamínicos de segunda geração são preferíveis, com loratadina e fexofenadina tendo a menor excreção no leite.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o acesso a anti-histamínicos para uso crônico sem a necessária orientação sobre a escolha do fármaco mais adequado para tratamento prolongado. Um paciente com rinite alérgica que adquira dexclorfeniramina para uso diário pode sofrer com sedação crônica, comprometendo sua qualidade de vida. Defender o uso racional de antialérgicos a longo prazo é assegurar que a escolha recaia sobre anti-histamínicos de segunda geração, com perfil de segurança superior para uso contínuo.
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