Antialérgicos
uso em crianças e idosos
O uso de antialérgicos em populações extremas, crianças e idosos, exige considerações especiais devido às diferenças farmacocinéticas e farmacodinâmicas que modificam a resposta aos fármacos e o risco de efeitos adversos.
Em crianças, os anti-histamínicos são amplamente utilizados para rinite alérgica, urticária e dermatite atópica. A escolha deve privilegiar os anti-histamínicos de segunda geração não sedativos. A loratadina é aprovada para crianças a partir dos 2 anos, na dose de 5 mg/dia para peso ≤30 kg e 10 mg/dia para peso >30 kg. A desloratadina é aprovada a partir dos 6 meses (1 mg/dia para 6-11 meses, 1,25 mg/dia para 1-5 anos, 2,5 mg/dia para 6-11 anos). A cetirizina é aprovada a partir dos 2 anos, na dose de 2,5 mg/dia (2-6 anos) ou 5-10 mg/dia (6-12 anos). A fexofenadina é aprovada a partir dos 6 meses, com doses baseadas no peso.
Os anti-histamínicos de primeira geração devem ser evitados em crianças sempre que possível. A sedação compromete o aprendizado e o desempenho escolar. A excitação paradoxal, que ocorre em até 10% das crianças, pode ser confundida com piora do quadro alérgico e levar a aumento da dose, agravando o problema. Em lactentes, a apneia foi descrita com o uso de prometazina, que é contraindicada em menores de 2 anos (e em muitos países, em menores de 6 anos).
A dose em crianças deve ser rigorosamente calculada com base no peso (mg/kg), nunca por idade isoladamente. Formulações líquidas (soluções, xaropes) são preferíveis para permitir ajuste fino da dose, mas exigem uso de dispositivos de medição padronizados (seringas orais, copos medidores), nunca colheres domésticas.
Em idosos, as alterações farmacocinéticas (redução do metabolismo hepático, da função renal, aumento do volume de distribuição) e farmacodinâmicas (maior sensibilidade a efeitos adversos) tornam o uso de anti-histamínicos de primeira geração particularmente problemático. A sedação aumenta o risco de quedas e fraturas, e os efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva) são exacerbados pela redução da função fisiológica.
A carga anticolinérgica total, quando anti-histamínicos de primeira geração são associados a outros fármacos com efeitos similares (antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, antiparkinsonianos, medicamentos para incontinência urinária), pode acelerar o declínio cognitivo e aumentar o risco de demência. Por esta razão, a Beers Criteria lista todos os anti-histamínicos de primeira geração como potencialmente inapropriados para idosos, recomendando evitá-los sempre que possível.
Em idosos, anti-histamínicos de segunda geração não sedativos (loratadina, desloratadina, fexofenadina, cetirizina) são a escolha mais segura. No entanto, a dose de cetirizina deve ser reduzida em insuficiência renal (comum em idosos). A fexofenadina também tem eliminação renal significativa. A loratadina, metabolizada no fígado, é segura em idosos com função renal preservada, mas pode exigir ajuste em hepatopatas.
A interação de anti-histamínicos com outros medicamentos comuns em idosos merece atenção. A associação com benzodiazepínicos, opioides e outros depressores do SNC potencializa a sedação e o risco de quedas. A associação com anticolinérgicos aumenta a carga anticolinérgica.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que crianças e idosos recebam anti-histamínicos inadequados sem orientação qualificada. Uma criança que receba dexclorfeniramina pode ter seu desempenho escolar comprometido. Um idoso que adquira hidroxizina para "dormir melhor" pode sofrer queda e fratura. Defender o uso racional de antialérgicos é assegurar que, independentemente do local de aquisição, as necessidades específicas destas populações sejam consideradas e que os riscos de fármacos inapropriados sejam conhecidos e comunicados.
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