Antifúngicos
Fundamentos e uso racional
Os antifúngicos constituem uma classe farmacológica de complexidade significativa, refletindo as semelhanças entre as células fúngicas e humanas (ambas eucarióticas), que limitam o número de alvos seletivos para intervenção terapêutica. Seu uso, que vai desde infecções superficiais comuns até doenças sistêmicas potencialmente fatais, exige conhecimento aprofundado para garantir eficácia e minimizar toxicidade.
A classificação dos antifúngicos baseia-se no mecanismo de ação e no espectro de atividade. Os azólicos (cetoconazol, fluconazol, itraconazol, voriconazol, posaconazol) inibem a enzima lanosterol 14α-desmetilase, bloqueando a síntese de ergosterol, componente essencial da membrana celular fúngica. Sua seletividade decorre da maior afinidade pela enzima fúngica que pela humana, embora inibição da síntese de esteroides humanos possa ocorrer, particularmente com cetoconazol.
As equinocandinas (caspofungina, micafungina, anidulafungina) inibem a síntese de β-glucana, componente da parede celular fúngica ausente em células humanas, conferindo alta seletividade. São ativas contra Candida e Aspergillus, com excelente perfil de segurança. A anfotericina B, poliênico de amplo espectro, liga-se ao ergosterol da membrana fúngica, formando poros que levam à morte celular. Sua toxicidade (particularmente renal) limita o uso, embora formulações lipídicas reduzam este risco.
As alilaminas (terbinafina) inibem a esqualeno epoxidase, bloqueando a síntese de ergosterol e causando acúmulo de esqualeno tóxico para o fungo. São particularmente ativas contra dermatófitos. Os antimetabólitos (5-flucitosina) inibem a síntese de DNA e RNA fúngicos, mas são raramente usados isoladamente pelo rápido desenvolvimento de resistência.
A farmacocinética dos antifúngicos varia dramaticamente entre os fármacos. O cetoconazol, tema do próximo capítulo, tem absorção variável e dependente de pH gástrico. O fluconazol tem excelente biodisponibilidade oral (90%) e penetração no sistema nervoso central. O itraconazol requer ambiente ácido para absorção e tem farmacocinética errática. O voriconazol é metabolizado pelo CYP2C19, com variabilidade genética significativa. As equinocandinas são apenas intravenosas, com meia-vida longa que permite dose única diária.
As indicações dos antifúngicos abrangem desde infecções superficiais (dermatofitoses, candidíase cutâneo-mucosa) até doenças sistêmicas (candidemia, aspergilose invasiva, criptococose, histoplasmose, paracoccidioidomicose). A escolha do antifúngico depende do agente etiológico, da localização da infecção, da gravidade, da condição imunológica do paciente e da farmacocinética do fármaco.
A resistência aos antifúngicos é preocupação crescente, particularmente em Candida glabrata e Candida auris, espécies com resistência intrínseca ou adquirida a múltiplos antifúngicos. O uso indiscriminado de azólicos, particularmente fluconazol, contribui para este problema, assim como o uso agrícola extensivo de fungicidas da mesma classe.
As interações medicamentosas dos antifúngicos, particularmente dos azólicos, estão entre as mais numerosas e clinicamente relevantes da farmacologia. A inibição do CYP3A4 e de outras isoenzimas eleva os níveis de inúmeros fármacos: estatinas (risco de miopatia), anticoagulantes orais (risco de sangramento), benzodiazepínicos (sedação excessiva), anticonvulsivantes, imunossupressores (ciclosporina, tacrolimo), entre outros.
A toxicidade dos antifúngicos varia conforme a classe. Os azólicos podem causar hepatotoxicidade (particularmente cetoconazol e voriconazol), prolongamento do QT e, com uso prolongado, distúrbios endócrinos (cetoconazol inibe a síntese de esteroides adrenais e gonadais). A anfotericina B causa nefrotoxicidade dose-dependente, além de reações infusionais (febre, calafrios). As equinocandinas são bem toleradas, com efeitos adversos mínimos.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta particular para antifúngicos de venda livre utilizados em infecções superficiais. A automedicação com cremes e pomadas antifúngicas pode mascarar diagnósticos, retardar tratamento adequado e, quando usada incorretamente, contribuir para resistência. A orientação farmacêutica, no momento da dispensação, é oportunidade para investigar a adequação do tratamento, alertar sobre sinais de alerta e encaminhar para avaliação médica quando necessário. Defender o uso racional de antifúngicos é reconhecer que, mesmo para infecções superficiais, o diagnóstico correto e o tratamento adequado são essenciais para a cura e para a prevenção de complicações e resistência.
Comentários
Postar um comentário