Efeitos Adversos
Cardiovasculares
Os efeitos adversos cardiovasculares de medicamentos utilizados para outras finalidades representam uma das áreas mais desafiadoras da farmacovigilância e da prática clínica. Múltiplas classes farmacológicas, prescritas para as mais diversas condições, podem afetar adversamente o sistema cardiovascular, desde elevação da pressão arterial até arritmias potencialmente fatais.
Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como extensamente discutido, elevam a pressão arterial por retenção de sódio e água e aumento da resistência vascular periférica. O efeito médio é de 3-5 mmHg, suficiente para descompensar pacientes previamente controlados. Adicionalmente, aumentam o risco de eventos trombóticos (infarto, acidente vascular cerebral), particularmente com inibidores seletivos da COX-2 e diclofenaco. O risco é dose-dependente e mais pronunciado no primeiro mês de uso.
Os corticosteroides, utilizados em inúmeras condições inflamatórias e autoimunes, causam retenção de sódio e água, elevando a pressão arterial por expansão volêmica. O efeito é dose-dependente e mais pronunciado com mineralocorticoides (fludrocortisona). Adicionalmente, podem induzir hiperglicemia, dislipidemia e, com uso prolongado, cardiomiopatia.
Os antidepressivos têm efeitos cardiovasculares variáveis. Os tricíclicos podem causar taquicardia sinusal, hipotensão ortostática (por bloqueio α-adrenérgico) e prolongamento do intervalo QT, com risco de torsades de pointes. Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são mais seguros, mas alguns (citalopram em doses elevadas) também prolongam o QT. A associação de antidepressivos com anti-hipertensivos pode potencializar a hipotensão ortostática, aumentando risco de quedas.
Os antipsicóticos, particularmente os de segunda geração (clozapina, olanzapina, quetiapina), associam-se a risco aumentado de síndrome metabólica (ganho de peso, dislipidemia, hiperglicemia), com consequente aumento do risco cardiovascular. Alguns (haloperidol, ziprasidona) prolongam significativamente o intervalo QT, exigindo monitorização.
Os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (sildenafil, tadalafil, vardenafil), utilizados para disfunção erétil e hipertensão pulmonar, causam vasodilatação que pode resultar em hipotensão, particularmente perigosa quando associados a nitratos (contraindicação absoluta). Em pacientes com cardiopatia isquêmica, o uso deve ser cauteloso.
Os quimioterápicos estão entre os fármacos com maior potencial cardiotóxico. Antraciclinas (doxorrubicina, daunorrubicina) causam cardiomiopatia dilatada dose-dependente, irreversível e potencialmente fatal. Trastuzumabe, anticorpo monoclonal usado em câncer de mama, associa-se a disfunção ventricular, geralmente reversível com a suspensão. Inibidores da tirosina quinase podem causar hipertensão, prolongamento do QT e insuficiência cardíaca.
Os anestésicos locais com vasoconstritores (epinefrina), utilizados em odontologia e pequenas cirurgias, podem causar taquicardia e elevação pressórica, particularmente perigosas em pacientes com cardiopatia não controlada.
Os agonistas β2-adrenérgicos inalatórios (salbutamol, formoterol), utilizados na asma e DPOC, podem causar taquicardia sinusal e, raramente, arritmias atriais ou ventriculares, particularmente em doses elevadas e em pacientes susceptíveis.
Os hormônios tireoidianos, quando utilizados em doses excessivas, induzem taquicardia, palpitações, angina e, em casos graves, insuficiência cardíaca de alto débito.
A identificação precoce de efeitos adversos cardiovasculares depende de monitorização regular. Pacientes em uso de fármacos com potencial cardiovascular devem ter pressão arterial, frequência cardíaca e, quando indicado, eletrocardiograma monitorizados periodicamente. A suspeita de efeito adverso deve levar à reavaliação da relação benefício-risco e, quando possível, à substituição por alternativa mais segura.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta para o risco de que pacientes utilizem medicamentos com potencial cardiovascular adverso sem a devida avaliação e monitorização. A banalização do acesso a AINEs, por exemplo, pode descompensar a pressão arterial de milhões de hipertensos. Defender a segurança cardiovascular é assegurar que cada prescrição e cada dispensação considerem o potencial cardiovascular dos fármacos, e que os pacientes sejam orientados sobre os sinais de alerta que exigem avaliação médica.
Comentários
Postar um comentário