Farmacovigilância cardiovascular

Farmacovigilância cardiovascular


A farmacovigilância cardiovascular constitui atividade estratégica para a identificação de riscos associados a medicamentos utilizados no tratamento de doenças cardiovasculares, bem como para a detecção de efeitos adversos cardiovasculares de fármacos utilizados para outras finalidades. Em um cenário de crescente complexidade terapêutica e de envelhecimento populacional, a vigilância contínua é essencial para proteger pacientes e orientar políticas regulatórias. 

O sistema brasileiro de farmacovigilância, coordenado pela ANVISA, coleta e analisa notificações de suspeitas de eventos adversos através do sistema NOTIVISA. Profissionais de saúde, pacientes e indústria farmacêutica podem registrar reações adversas, queixas técnicas e desvios de qualidade. Em 2024, foram registradas mais de 70 mil notificações, com os medicamentos cardiovasculares figurando entre as classes mais frequentemente implicadas. 

Os anti-hipertensivos geram notificações de efeitos adversos esperados (tosse com IECA, edema com anlodipino, hipocalemia com diuréticos) e, ocasionalmente, de eventos mais graves como angioedema (IECA) e lesão renal aguda. A análise sistemática destas notificações permite identificar fatores de risco, populações mais vulneráveis e sinais de segurança que podem levar a atualizações de bula ou restrições de uso. 

As estatinas são objeto de vigilância intensiva pelo risco de miopatia e rabdomiólise, particularmente em doses elevadas e com interações medicamentosas. A identificação de casos de lesão muscular grave levou a restrições no uso de sinvastatina 80 mg e a alertas sobre interações com inibidores da CYP3A4. 

Os anticoagulantes, particularmente a varfarina, geram notificações frequentes de sangramentos, complicação esperada, mas que pode ser grave. A farmacovigilância dos DOACs (rivaroxabanaapixabanadabigatrana) tem confirmado o perfil de segurança favorável observado nos estudos clínicos, mas também identificado riscos específicos, como o aumento de sangramento gastrointestinal com rivaroxabana. 

A detecção de novos sinais de segurança depende da notificação espontânea e da análise de grandes bancos de dados. A associação entre inibidores da bomba de prótons e risco cardiovascular, por exemplo, emergiu de estudos observacionais e análises de bancos de dados, levando a investigações adicionais e recomendações cautelares. 

A comunicação de riscos é função estratégica da farmacovigilância. Alertas, comunicados e atualizações de bula devem chegar rapidamente a profissionais de saúde e população. A experiência com o rofecoxibe, retirado do mercado após identificação de aumento do risco cardiovascular, exemplifica a importância da vigilância e da comunicação oportuna. 

As limitações da farmacovigilância por notificação espontânea no Brasil são significativas. A subnotificação é generalizada, estimando-se que menos de 10% dos eventos adversos sejam registrados. Profissionais de saúde frequentemente desconhecem o sistema, não reconhecem a relação causal ou não dispõem de tempo para notificar. Pacientes raramente são informados sobre como reportar suspeitas de reações adversas. 

A educação de profissionais e pacientes sobre a importância da farmacovigilância é estratégia fundamental para superar estas limitações. Cada notificação é contribuição para o conhecimento coletivo, ato de cidadania sanitária que pode proteger futuros pacientes do mesmo dano. 

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, introduz desafios adicionais para a farmacovigilância cardiovascular. A fragmentação da cadeia de dispensação pode dificultar a identificação e notificação de eventos adversos, particularmente aqueles relacionados a medicamentos isentos de prescrição que afetam o sistema cardiovascular (AINEs, descongestionantes). Defender a farmacovigilância cardiovascular é assegurar que o sistema de notificação seja fortalecido, não fragmentado, e que cada evento adverso registrado contribua para proteger futuros pacientes. 

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