Fitoterápicos e hipertensão
A utilização de fitoterápicos por pacientes hipertensos é prática comum no Brasil, refletindo a tradição do uso de plantas medicinais e a percepção, frequentemente equivocada, de que produtos naturais são intrinsecamente seguros. Esta realidade exige dos profissionais de saúde conhecimento aprofundado sobre os efeitos cardiovasculares destas substâncias e seus potenciais interações com anti-hipertensivos convencionais.
Diversos fitoterápicos comumente utilizados podem elevar a pressão arterial ou interferir com o tratamento anti-hipertensivo. A efedra (ma huang), presente em produtos para emagrecimento e aumento de energia, contém alcaloides simpaticomiméticos (efedrina, pseudoefedrina) que elevam a pressão arterial e a frequência cardíaca, podendo precipitar crises hipertensivas, arritmias e, raramente, acidente vascular cerebral. Seu uso é particularmente perigoso em pacientes com hipertensão não controlada.
O ginseng, utilizado como adaptógeno e estimulante, pode elevar a pressão arterial em alguns indivíduos e, mais importante, interage com anti-hipertensivos, particularmente com IECA e bloqueadores de canais de cálcio. Relatos de caso documentam aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial com o uso concomitante, possivelmente por efeito aditivo ou por interferência farmacocinética.
O alcaçuz (glicirriza), presente em chás, doces e alguns fitoterápicos para problemas digestivos, contém ácido glicirrízico que inibe a 11β-hidroxiesteroide desidrogenase, enzima que inativa o cortisol. O excesso de cortisol resultante atua em receptores mineralocorticoides, causando retenção de sódio e água, hipocalemia e elevação da pressão arterial. O efeito é dose-dependente e reversível com a suspensão.
A yohimbina, extraída da casca de uma árvore africana e utilizada para disfunção erétil e como estimulante, é antagonista α2-adrenérgico, resultando em aumento da liberação de noradrenalina e elevação da pressão arterial e frequência cardíaca. É contraindicada em pacientes com hipertensão, doença coronariana e em uso de antidepressivos.
Outros fitoterápicos com efeitos hipertensivos documentados incluem: Ginkgo biloba (pode reduzir a eficácia de anti-hipertensivos por indução enzimática), erva-mate (cafeína), guaraná (cafeína), e certos chineses tradicionais contendo efedra.
Por outro lado, alguns fitoterápicos têm sido estudados por seus potenciais efeitos anti-hipertensivos. O alho (Allium sativum) demonstrou redução modesta da pressão arterial em alguns estudos, atribuída a seus compostos sulfurados com ação vasodilatadora. O hibisco (Hibiscus sabdariffa), em forma de chá, tem sido associado a redução discreta da pressão, possivelmente por efeito diurético e vasodilatador. O extrato de oliveira (Olea europaea) contém oleuropeína, com ação vasodilatadora documentada.
A qualidade dos fitoterápicos comercializados no Brasil é variável, e a ausência de padronização é problema significativo. Estudos demonstram que muitos produtos não contêm as quantidades declaradas de princípios ativos, ou apresentam contaminação por metais pesados, pesticidas ou até fármacos convencionais não declarados. Esta variabilidade compromete tanto a eficácia quanto a segurança.
A orientação a pacientes hipertensos sobre fitoterápicos deve incluir: informar o médico sobre todos os produtos utilizados, incluindo chás e suplementos; evitar produtos com efeitos hipertensivos conhecidos (efedra, alcaçuz, yohimbina); utilizar com cautela produtos com potencial anti-hipertensivo, preferindo marcas com registro na ANVISA; monitorizar a pressão arterial ao iniciar ou suspender qualquer fitoterápico; e estar atento a sinais de interação, como descontrole pressórico ou efeitos adversos inexplicados.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, pode ampliar o acesso a fitoterápicos em ambientes com menor orientação profissional. A percepção de que "natural" é sinônimo de "seguro" pode levar pacientes hipertensos a utilizar produtos com efeitos cardiovasculares adversos sem o devido conhecimento. Defender o uso racional de fitoterápicos na hipertensão é assegurar que cada aquisição seja acompanhada de orientação sobre potenciais riscos e interações, e que a farmacovigilância inclua também estes produtos, frequentemente invisíveis nos sistemas oficiais de notificação.
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