Hipertensão Arterial no Brasil
A hipertensão arterial sistêmica no Brasil constitui um dos mais graves problemas de saúde pública, afetando aproximadamente 30% da população adulta, com prevalência que se eleva progressivamente com a idade, atingindo mais de 60% nos indivíduos acima de 60 anos. Estes números, extraídos da Pesquisa Nacional de Saúde e de estudos epidemiológicos de base populacional, revelam a magnitude de uma epidemia silenciosa que responde por parcela substancial da morbimortalidade cardiovascular no país.
A distribuição da hipertensão no território brasileiro é marcada por desigualdades regionais e sociais significativas. As regiões Sudeste e Sul apresentam as maiores prevalências, refletindo o envelhecimento populacional mais acentuado. As regiões Norte e Nordeste, embora com populações mais jovens, enfrentam desafios adicionais de acesso ao diagnóstico e tratamento. Populações de menor renda e escolaridade apresentam não apenas maior prevalência, mas também pior controle pressórico, evidenciando o papel dos determinantes sociais na gênese e evolução da doença.
O impacto da hipertensão na morbimortalidade brasileira é impressionante. Estima-se que a doença seja responsável por 45% das mortes por doença arterial coronariana e 51% dos óbitos por acidente vascular cerebral no país. As complicações crônicas, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, doença arterial periférica, consomem recursos expressivos do sistema de saúde e impõem sofrimento incalculável aos pacientes e suas famílias.
O diagnóstico da hipertensão no Brasil ainda é tardio em parcela significativa dos casos. Estima-se que 20% a 30% dos hipertensos desconheçam sua condição, e entre os diagnosticados, apenas metade recebe tratamento farmacológico. O controle pressórico adequado (pressão arterial inferior a 140/90 mmHg) é alcançado por menos de 30% dos pacientes tratados, índice muito aquém do desejável e distante de metas internacionais.
Os fatores de risco associados à hipertensão no Brasil refletem as transformações epidemiológicas e nutricionais das últimas décadas. O consumo excessivo de sódio, estimado em mais de 10 gramas diárias per capita (o dobro do recomendado pela OMS), é determinante fundamental. A obesidade, que afeta mais de 20% da população adulta, e o sedentarismo, presente em 40% dos brasileiros, completam o cenário de risco modificável que poderia ser alvo de políticas públicas efetivas.
O Sistema Único de Saúde oferece atenção à hipertensão através da Estratégia Saúde da Família, com distribuição gratuita de medicamentos anti-hipertensivos pelo programa Farmácia Popular e pelos componentes da assistência farmacêutica básica. Apesar destes avanços, persistem problemas de acesso, disponibilidade irregular de medicamentos, fragmentação do cuidado e baixa adesão ao tratamento.
A adesão ao tratamento anti-hipertensivo no Brasil é desafio complexo. A natureza assintomática da doença, a necessidade de tratamento contínuo e vitalício, os efeitos adversos dos medicamentos, a polifarmácia em idosos, as crenças culturais sobre medicamentos e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde contribuem para taxas de abandono que comprometem o controle pressórico.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, insere-se neste contexto como fator de risco potencial para o manejo da hipertensão. A banalização do acesso a medicamentos, a fragmentação da cadeia de cuidado e a redução da oportunidade de orientação profissional podem comprometer ainda mais a já frágil adesão ao tratamento. Defender o controle da hipertensão no Brasil é reconhecer que o acesso a medicamentos é apenas um componente necessário, mas insuficiente, do cuidado integral, que exige diagnóstico precoce, educação continuada, acompanhamento regular e políticas públicas consistentes de promoção da saúde e prevenção de complicações
Comentários
Postar um comentário