Hipertensão secundária

Hipertensão secundária



A hipertensão secundária, definida como elevação da pressão arterial decorrente de causa identificável e potencialmente reversível, representa aproximadamente 5% a 10% dos casos de hipertensão. Embora minoritária, sua identificação é crucial porque permite tratamento específico que pode levar à cura ou melhora significativa do controle pressórico, reduzindo a dependência de anti-hipertensivos e o risco de complicações.

A doença renal crônica é a causa mais comum de hipertensão secundária. A hipertensão pode ser tanto causa quanto consequência da doença renal, estabelecendo ciclo vicioso. Mecanismos envolvem retenção de sódio e água, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, e disfunção autonômica. O diagnóstico baseia-se em alterações na creatinina, na taxa de filtração glomerular estimada e no exame de urina (proteinúria, hematúria, cilindrúria).

A estenose de artéria renal, frequentemente por aterosclerose (em idosos) ou displasia fibromuscular (em mulheres jovens), causa hipertensão renovascular por ativação do sistema renina-angiotensina. Suspeita-se em casos de hipertensão de início abrupto, piora rápida de hipertensão previamente controlada, hipertensão resistente, ou associação com episódios recorrentes de edema pulmonar flash. A ultrassonografia com Doppler, a angiotomografia ou a angiorressonância podem confirmar o diagnóstico.

O hiperaldosteronismo primário, antes considerado raro, é hoje reconhecido como causa frequente de hipertensão secundária, particularmente em pacientes com hipertensão resistente. Causado por adenoma adrenal produtor de aldosterona ou hiperplasia bilateral das adrenais, caracteriza-se por hipertensão frequentemente grave, com ou sem hipocalemia (presente em apenas 30% dos casos). O rastreio é feito pela relação aldosterona/renina plasmática.

A apneia obstrutiva do sono, condição caracterizada por episódios repetidos de obstrução das vias aéreas superiores durante o sono, é causa cada vez mais reconhecida de hipertensão secundária. A hipóxia intermitente e os despertares frequentes ativam o sistema nervoso simpático, elevando a pressão arterial, particularmente durante a noite e pela manhã. O tratamento com CPAP pode melhorar significativamente o controle pressórico.

O feocromocitoma, tumor produtor de catecolaminas, é causa rara, mas classicamente descrita de hipertensão secundária. Manifesta-se por crises de hipertensão paroxística, frequentemente acompanhadas de cefaleia, palpitações, sudorese e palidez. O diagnóstico baseia-se na dosagem de metanefrinas plasmáticas ou urinárias e na localização por imagem.

As doenças da tireoide também podem causar hipertensão. O hipertireoidismo associa-se a aumento do débito cardíaco e da pressão arterial sistólica. O hipotireoidismo aumenta a resistência vascular periférica e a pressão arterial diastólica. O tratamento da disfunção tireoidiana melhora o controle pressórico.

A coarctação da aorta, embora geralmente diagnosticada na infância, pode ocasionalmente apresentar-se na vida adulta como hipertensão em membros superiores com pulsos femorais diminuídos ou ausentes. O diagnóstico é confirmado por ecocardiografia ou angiotomografia.

Outras causas incluem síndrome de Cushing, hiperparatireoidismo, acromegalia, uso de fármacos (AINEs, corticosteroides, descongestionantes, anticoncepcionais orais, ciclosporina, eritropoetina) e substâncias (álcool, cocaína, anfetaminas).

A suspeita de hipertensão secundária deve ser considerada em pacientes com hipertensão de início antes dos 30 anos ou após os 50 anos, hipertensão resistente, hipertensão grave (PA ≥180/110 mmHg), piora abrupta do controle pressórico, sinais ou sintomas sugestivos de causa específica, e hipocalemia espontânea (ou induzida por diuréticos em baixas doses). A investigação deve ser graduada e orientada pela suspeita clínica.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com o diagnóstico de hipertensão secundária, condição que exige avaliação especializada. No entanto, a banalização do acesso a anti-hipertensivos pode retardar a investigação de causas secundárias, tratando sintomas (a pressão elevada) em vez da causa subjacente. Defender o diagnóstico adequado da hipertensão é assegurar que cada paciente, particularmente aqueles com características sugestivas, seja adequadamente investigado, potencialmente poupando anos de tratamento desnecessário e prevenindo complicações.

Comentários