Medicamentos gastrointestinais: uso em crianças e idosos

 Medicamentos gastrointestinais
uso em crianças e idosos


O uso de medicamentos gastrointestinais em crianças e idosos apresenta particularidades significativas, dadas as diferenças na fisiologia do sistema digestivo e nos perfis de segurança.

Em crianças, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é comum, particularmente em lactentes. O tratamento baseia-se inicialmente em medidas posturais e espessamento da dieta. Quando necessário, os antagonistas H2 (ranitidina, famotidina) ou os inibidores da bomba de prótons (IBP) podem ser utilizados. A dose deve ser rigorosamente calculada com base no peso.

O omeprazol é o IBP mais estudado em crianças, com doses de 0,7-1,4 mg/kg/dia. Formulações em sachê ou suspensão permitem ajuste fino da dose. O uso prolongado de IBP em crianças tem sido associado a aumento do risco de infecções entéricas e, teoricamente, a alterações na microbiota intestinal, com implicações ainda não totalmente compreendidas.

A constipação funcional é extremamente comum em crianças. O tratamento baseia-se em medidas dietéticas (aumento de fibras, hidratação) e, quando necessário, laxantes osmóticos (lactulose, polietilenoglicol). Laxantes estimulantes (sene, bisacodil) devem ser evitados ou usados apenas esporadicamente.

A diarreia aguda em crianças é frequentemente viral. A reidratação oral é a base do tratamento. Antidiarreicos (loperamida) são contraindicados em crianças pequenas pelo risco de íleo paralítico e agravamento de infecções invasivas. Probióticos (Saccharomyces boulardii, Lactobacillus) podem reduzir a duração da diarreia.

Em idosos, as alterações fisiológicas do envelhecimento incluem redução da motilidade esofágica, atrofia gástrica (com redução da secreção ácida), alterações na motilidade intestinal e maior prevalência de comorbidades (constipação, DRGE, disfagia).

Os IBP são amplamente utilizados em idosos, muitas vezes sem indicação adequada. Os riscos do uso prolongado (deficiência de B12, fraturas, infecções entéricas, nefrite intersticial) são particularmente relevantes nesta população. A reavaliação periódica da necessidade de IBP e a tentativa de redução de dose (step-down) ou descontinuação são fundamentais.

A constipação é extremamente comum em idosos, contribuindo para desconforto, impactação fecal e, em casos extremos, perfuração intestinal. O tratamento inclui aumento da ingestão de fibras (com cuidado para não piorar a distensão), hidratação adequada, atividade física e laxantes osmóticos (lactulose, polietilenoglicol) como primeira linha. Laxantes estimulantes devem ser evitados a longo prazo pelo risco de atonia colônica.

A disfagia (dificuldade de deglutição) é comum em idosos com doenças neurológicas (AVC, Parkinson, demência). Comprimidos grandes podem ser difíceis de engolir, aumentando o risco de broncoaspiração. Formulações líquidas ou dispersíveis devem ser preferidas quando disponíveis.

A polifarmácia em idosos aumenta o risco de efeitos adversos gastrointestinais. AINEs causam gastropatia, úlceras e sangramentos. Anticolinérgicos causam boca seca, disfagia e constipação. Opioides causam constipação severa, frequentemente subtratada.

A desnutrição é comum em idosos, e medicamentos gastrointestinais podem contribuir para ela. IBP reduzem a absorção de B12, cálcio, magnésio. Antiácidos contendo alumínio podem causar anorexia.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que crianças e idosos recebam medicamentos gastrointestinais sem orientação adequada. Uma criança com diarreia que receba loperamida pode complicar uma infecção. Um idoso que use IBP cronicamente sem indicação pode desenvolver deficiências nutricionais. Defender o uso racional de medicamentos gastrointestinais é assegurar que, independentemente da idade, cada paciente tenha suas necessidades específicas consideradas e que os riscos do uso prolongado sejam conhecidos e monitorizados.

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