Os medicamentos gastrointestinais estão entre as classes mais consumidas no Brasil, tanto por prescrição quanto por automedicação, refletindo a elevada prevalência de dispepsia, doença do refluxo gastroesofágico, constipação, diarreia e outras condições. O uso racional destes fármacos exige conhecimento aprofundado dos mecanismos de ação, indicações precisas e riscos associados ao uso prolongado.
Os inibidores da bomba de prótons (IBP), omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol, rabeprazol, são os fármacos mais potentes para supressão ácida, atuando por inibição irreversível da H+/K+-ATPase nas células parietais gástricas. São indicados para doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), úlcera péptica, erradicação de H. pylori (em associação com antibióticos), prevenção de úlcera por AINEs, e síndrome de Zollinger-Ellison. O uso prolongado, no entanto, associou-se a riscos: deficiência de vitamina B12, hipomagnesemia, fraturas osteoporóticas, nefrite intersticial, e aumento do risco de infecções entéricas (particularmente por Clostridium difficile). A relação benefício-risco deve ser reavaliada periodicamente.
Os antagonistas H2 (ranitidina, famotidina, cimetidina) atuam bloqueando competitivamente os receptores H2 de histamina nas células parietais, reduzindo a secreção ácida estimulada por histamina, gastrina e acetilcolina. São menos potentes que os IBP e com desenvolvimento de taquifilaxia (perda de eficácia com uso contínuo). A ranitidina foi retirada do mercado em diversos países devido à contaminação com NDMA (impureza carcinogênica), mas reintroduzida após reformulação.
Os antiácidos (hidróxido de alumínio, hidróxido de magnésio, carbonato de cálcio) neutralizam o ácido gástrico de forma rápida, mas de curta duração. São úteis para alívio sintomático ocasional, mas inapropriados para tratamento contínuo. O magnésio pode causar diarreia; o alumínio, constipação; associações equilibram estes efeitos. Podem interferir na absorção de outros medicamentos, devendo-se respeitar intervalo de 2 horas.
Os procinéticos (metoclopramida, domperidona, bromoprida) aumentam a motilidade gastrointestinal, sendo utilizados na gastroparesia, DRGE e como antieméticos. A metoclopramida atravessa a barreira hematoencefálica e pode causar efeitos extrapiramidais (distonias agudas, acatisia, discinesia tardia), particularmente em crianças e idosos. A domperidona não penetra significativamente no SNC, mas prolonga o intervalo QT, com risco de arritmias.
Os antidiarreicos incluem probióticos (que restauram a flora intestinal), adsorventes (caulim, pectina), e inibidores da motilidade (loperamida). A loperamida, análogo da meperidina que não atravessa a barreira hematoencefálica, reduz a motilidade intestinal e é eficaz na diarreia aguda não infecciosa. É contraindicada em diarreias febris ou com sangue, pelo risco de agravamento de infecções por Shigella, Salmonella e E. coli enteroinvasiva.
Os laxantes classificam-se em formadores de volume (fibras, psyllium), osmóticos (lactulose, polietilenoglicol), estimulantes (bisacodil, sene) e emolientes (docusato). Os formadores de volume e osmóticos são preferidos para constipação crônica, com menor risco de dependência. Os estimulantes devem ser usados apenas esporadicamente, pelo risco de atonia colônica com uso prolongado.
Os antiflatulentos (simeticona) atuam reduzindo a tensão superficial das bolhas de gás no trato gastrointestinal, facilitando sua eliminação. São seguros, mas com eficácia limitada e baseada principalmente em evidências subjetivas.
Os antiespasmódicos (escopolamina, hioscina, mebeverina) relaxam a musculatura lisa gastrointestinal, sendo utilizados em cólicas e síndrome do intestino irritável. A escopolamina, anticolinérgico, pode causar boca seca, visão turva, taquicardia e retenção urinária.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta para medicamentos gastrointestinais de venda livre, particularmente IBP e antiácidos. O uso indiscriminado de omeprazol, prática comum no Brasil, expõe pacientes a riscos desnecessários (deficiência de B12, fraturas, infecções) sem benefício comprovado quando usado para queixas dispépticas inespecíficas. A orientação farmacêutica, no momento da dispensação, é oportunidade para investigar a adequação do uso, alertar sobre os riscos do uso prolongado e encaminhar para avaliação médica quando sinais de alarme estiverem presentes (perda de peso, disfagia, sangramento, anemia). Defender o uso racional de medicamentos gastrointestinais é assegurar que o alívio sintomático rápido não se converta em exposição crônica a riscos evitáveis.
Comentários
Postar um comentário