Medicamentos respiratórios: fundamentos e uso racional

Medicamentos respiratórios
fundamentos e uso racional



As doenças respiratórias, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), rinite, sinusite, infecções de vias aéreas, estão entre as condições mais prevalentes na população brasileira, e os medicamentos utilizados para seu tratamento figuram entre os mais prescritos e consumidos. O uso racional destes fármacos exige conhecimento aprofundado dos mecanismos de ação, das diferentes vias de administração e das particularidades de cada classe.

Os broncodilatadores são a base do tratamento das doenças obstrutivas das vias aéreas. Dividem-se em β2-agonistas (ações curta e longa), anticolinérgicos e metilxantinas. Os β2-agonistas de curta ação (SABA - salbutamol, fenoterol, terbutalina) são os fármacos de resgate por excelência, promovendo broncodilatação rápida (5-15 minutos) por relaxamento da musculatura lisa brônquica via ativação de receptores β2. São utilizados sob demanda para alívio de sintomas.

Os β2-agonistas de longa ação (LABA – formoterol, salmeterol) têm duração de efeito de 12 horas ou mais e são utilizados para controle contínuo, sempre em associação com corticosteroides inalatórios na asma (nunca isoladamente, pelo risco aumentado de mortalidade). O formoterol tem início de ação rápido, permitindo seu uso também como resgate em algumas estratégias.

Os anticolinérgicos (ipratrópio, tiotrópio) atuam bloqueando os receptores muscarínicos M3 na musculatura lisa brônquica, antagonizando a broncoconstrição mediada pelo nervo vago. O ipratrópio tem ação curta e início mais lento que os β2-agonistas; o tiotrópio, ação prolongada, é primeira linha na DPOC. São menos eficazes na asma, mas úteis como adjuvantes em crises graves.

Os corticosteroides inalatórios (CI – beclometasona, budesonida, fluticasona) são os fármacos de controle mais importantes na asma, atuando por múltiplos mecanismos anti-inflamatórios: reduzem a infiltração de eosinófilos, inibem a produção de citocinas, diminuem a hiper-reatividade brônquica e restauram a integridade epitelial. Seu efeito é lento (dias a semanas), exigindo uso regular. A via inalatória minimiza efeitos adversos sistêmicos, mas pode causar candidíase oral e disfonia, preveníveis com bochechos após a inalação.

Os antagonistas de leucotrienos (montelucaste) atuam bloqueando os receptores de cisteinil-leucotrienos, mediadores inflamatórios envolvidos na asma e rinite alérgica. São menos potentes que os CI, mas úteis como adjuvantes em asma leve e na rinite alérgica, particularmente em pacientes com intolerância a anti-histamínicos.

As metilxantinas (teofilina, aminofilina) são broncodilatadores de uso limitado por sua janela terapêutica estreita e numerosas interações. Atuam por inibição da fosfodiesterase e antagonismo de receptores de adenosina. Seu uso atualmente é restrito a casos selecionados, geralmente como adjuvante em doença grave.

Os mucolíticos (acetilcisteína, ambroxol) são amplamente utilizados, mas com evidências limitadas de eficácia. Podem facilitar a eliminação de secreções em pacientes com tosse produtiva, mas não modificam o curso da doença de base.

A técnica inalatória é determinante da eficácia. O uso inadequado de dispositivos inalatórios (aerossóis, pós secos, nebulizadores) compromete a deposição pulmonar do fármaco e, consequentemente, o controle da doença. A orientação e a verificação periódica da técnica são responsabilidade fundamental do profissional de saúde.

A asma e a DPOC requerem abordagens distintas. Na asma, o tratamento é escalonado conforme o nível de controle, com CI como base e LABA associados em casos não controlados. Na DPOC, o tratamento é escalonado conforme sintomas e risco de exacerbações, com broncodilatadores de longa ação (LABA e/ou LAMA) como base, e CI reservados para fenótipos específicos (exacerbações frequentes com eosinofilia).

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta para medicamentos respiratórios de venda livre, particularmente broncodilatadores de curta ação e mucolíticos. O uso indiscriminado de salbutamol sem diagnóstico e acompanhamento pode mascarar a gravidade da asma, retardar o início de corticoterapia adequada e aumentar o risco de exacerbações graves. Defender o uso racional de medicamentos respiratórios é assegurar que cada paciente com sintomas respiratórios crônicos seja adequadamente diagnosticado, que o tratamento seja baseado em diretrizes e que a técnica inalatória seja regularmente verificada.

Comentários