Medicamentos respiratórios
interações medicamentosa
As interações medicamentosas envolvendo medicamentos respiratórios são menos numerosas que as de outras classes, mas algumas são clinicamente relevantes e merecem atenção. Esta seção detalha as principais interações e suas implicações para o manejo de pacientes com doenças respiratórias.
Os β2-agonistas, particularmente em altas doses, podem causar hipocalemia por estímulo da bomba Na+/K+-ATPase e entrada de potássio nas células. Este efeito é potencializado por outros fármacos que também reduzem o potássio: diuréticos (tiazídicos, de alça), corticosteroides, teofilina, e anfotericina B. A hipocalemia pode predispor a arritmias, particularmente em pacientes com doença cardiovascular ou em uso de digoxina. A monitorização do potássio é recomendada em pacientes em uso de altas doses de β2-agonistas associados a outros agentes hipocalemiantes.
Os β2-agonistas também podem elevar a glicemia, efeito potencializado por corticosteroides. Pacientes diabéticos podem necessitar de ajuste da medicação hipoglicemiante durante exacerbações que requerem altas doses de β2-agonistas e corticosteroides sistêmicos.
Os corticosteroides inalatórios (CI), embora com absorção sistêmica mínima, podem ter seus efeitos sistêmicos potencializados por inibidores da CYP3A4 (cetoconazol, itraconazol, ritonavir), particularmente para a fluticasona, que é extensamente metabolizada por esta via. A associação pode causar síndrome de Cushing iatrogênica e supressão adrenal, mesmo com doses inalatórias habituais. Casos de insuficiência adrenal aguda foram descritos com a associação fluticasona + ritonavir. A budesonida é menos suscetível a esta interação.
A teofilina, embora hoje pouco utilizada, tem janela terapêutica estreita e inúmeras interações. Inibidores da CYP1A2 (fluvoxamina, ciprofloxacino, enoxacino, mexiletina, ticlopidina) e da CYP3A4 (cetoconazol, itraconazol, eritromicina, claritromicina) elevam seus níveis, com risco de toxicidade (náuseas, vômitos, taquicardia, arritmias, convulsões). Indutores (rifampicina, carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, erva-de-são-joão, tabagismo) reduzem seus níveis, comprometendo a eficácia. O uso de teofilina exige monitorização rigorosa dos níveis séricos.
Os anticolinérgicos inalatórios (ipratrópio, tiotrópio) têm absorção sistêmica mínima e, portanto, baixo potencial de interações sistêmicas. No entanto, quando associados a outros anticolinérgicos (para bexiga hiperativa, Parkinson, etc.), pode haver efeitos aditivos (boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva).
Os antagonistas de leucotrienos (montelucaste) são metabolizados pela CYP3A4 e CYP2C9, mas interações clinicamente significativas são raras. Podem potencializar o efeito de varfarina, embora o risco seja baixo.
Os mucolíticos (acetilcisteína) têm poucas interações. A acetilcisteína pode potencializar o efeito vasodilatador de nitratos, com risco de hipotensão.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que pacientes adquiram medicamentos respiratórios de venda livre (particularmente β2-agonistas de curta ação) sem considerar interações com outros medicamentos em uso. Um paciente com insuficiência cardíaca em uso de digoxina e diuréticos que utilize salbutamol em excesso pode desenvolver hipocalemia e arritmia. Defender o uso racional de medicamentos respiratórios é assegurar que, no momento da dispensação, seja feita uma breve investigação sobre outros medicamentos em uso, particularmente em pacientes com comorbidades.
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