Medicamentos respiratórios: segurança a longo prazo

Medicamentos respiratórios
Segurança a longo prazo


A segurança do uso prolongado de medicamentos respiratórios é uma questão central no manejo de doenças crônicas como asma e DPOC. Esta seção aborda as principais preocupações com o tratamento de manutenção a longo prazo.

Os corticosteroides inalatórios (CI) são a base do tratamento de controle da asma e são utilizados por décadas. Seu perfil de segurança para uso prolongado é excelente quando usados nas doses recomendadas. Os efeitos adversos locais (candidíase orofaríngea, disfonia) são comuns, mas manejáveis com bochechos após a inalação e uso de espaçadores.

Os efeitos sistêmicos dos CI dependem da dose e do fármaco. Em doses baixas a moderadas (≤500 μg/dia de fluticasona ou equivalente), o risco de supressão adrenal, redução da densidade mineral óssea e catarata é mínimo. Em doses elevadas (≥1000 μg/dia), particularmente com os CI mais potentes e com maior biodisponibilidade oral (fluticasona), o risco aumenta. A titulação para a menor dose eficaz é fundamental.

O crescimento em crianças asmáticas tratadas com CI deve ser monitorizado. Estudos mostram que crianças tratadas com CI podem ter uma redução pequena (1-2 cm) na altura final, mas este efeito é superado pelo benefício do controle da asma e pela redução do uso de corticosteroides sistêmicos (que causam supressão do crescimento mais significativa).

Os β2-agonistas de longa ação (LABA), quando usados em associação com CI, têm perfil de segurança favorável a longo prazo. Estudos de segurança pós-comercialização não demonstraram aumento de mortalidade com as associações fixas CI/LABA, diferentemente do LABA isolado.

Os anticolinérgicos de longa ação (LAMA), particularmente tiotrópio, têm excelente perfil de segurança para uso prolongado. Efeitos adversos anticolinérgicos (boca seca) são comuns, mas geralmente leves. O risco de retenção urinária é aumentado em pacientes com hipertrofia prostática, e o risco de glaucoma de ângulo estreito existe se o aerossol atingir os olhos.

A teofilina, quando usada cronicamente, exige monitorização dos níveis séricos para manter-se na estreita janela terapêutica (5-15 μg/mL). Níveis acima de 20 μg/mL associam-se a risco de toxicidade (náuseas, vômitos, taquicardia, arritmias, convulsões). Seu uso prolongado tem sido associado a melhora da função diafragmática e efeitos anti-inflamatórios em baixas doses, mas as interações medicamentosas e a necessidade de monitorização limitam seu uso.

A adesão ao tratamento de manutenção a longo prazo é o maior desafio na asma e DPOC. Estudos mostram que a adesão aos CI é inferior a 50% em muitos pacientes. A falta de percepção de benefício imediato, o medo de efeitos adversos e a complexidade dos regimes contribuem para a baixa adesão.

A exacerbação da doença subjacente (asma ou DPOC) pode ocorrer apesar do tratamento adequado, por exposição a gatilhos, infecções virais ou, mais frequentemente, por má adesão. As exacerbações frequentes são marcadores de mau controle e pior prognóstico.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que pacientes com doenças respiratórias crônicas adquiram seus medicamentos de manutenção sem a necessária orientação sobre técnica inalatória e sobre a importância da adesão. Defender o uso racional de medicamentos respiratórios a longo prazo é assegurar que, a cada dispensação, a técnica seja verificada, a adesão seja reforçada e os efeitos adversos sejam monitorizados.

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