Medicamentos respiratórios: uso em crianças e idosos

 Medicamentos respiratórios
uso em crianças e idosos 


O uso de medicamentos respiratórios em crianças e idosos apresenta particularidades significativas, relacionadas às diferenças na fisiologia respiratória, na farmacocinética e na capacidade de utilizar dispositivos inalatórios corretamente.

Em crianças, a asma é a doença respiratória crônica mais comum, afetando milhões no Brasil. O tratamento segue os mesmos princípios dos adultos, mas com adaptações importantes. Os corticosteroides inalatórios (CI) são a base do tratamento de controle, com budesonida sendo o mais estudado em crianças. A dose deve ser a menor eficaz para controlar os sintomas, e o crescimento deve ser monitorizado, pois altas doses de CI podem causar supressão do crescimento, geralmente reversível.

Os β2-agonistas de curta ação (salbutamol) são os fármacos de resgate. Em crianças pequenas, o uso de espaçadores com máscara facial é essencial para garantir a deposição pulmonar adequada. A técnica inalatória deve ser demonstrada e verificada em todas as consultas. Nebulizadores são alternativas para crianças que não conseguem usar inaladores dosimetrados, mas são menos eficientes e mais caros.

Os β2-agonistas de longa ação (LABA) em crianças devem ser sempre associados a CI, em dispositivo único (associação fixa) sempre que possível, para evitar o uso de LABA isolado. O formoterol, por seu início rápido, é usado em algumas estratégicas como terapia de manutenção e resgate.

Os antagonistas de leucotrienos (montelucaste) são particularmente úteis em crianças com asma leve persistente e naquelas com rinite alérgica associada. São administrados por via oral (comprimidos mastigáveis ou grânulos), o que elimina problemas de técnica inalatória. Efeitos adversos neuropsiquiátricos (agitação, agressividade, alterações de comportamento) são raros, mas devem ser monitorizados.

Em idosos, a DPOC é a doença respiratória mais prevalente, frequentemente associada a múltiplas comorbidades. O tratamento baseia-se em broncodilatadores de longa ação (LABA e LAMA), com CI reservados para fenótipos específicos.

As alterações fisiológicas do envelhecimento, redução da força muscular, da coordenação motora, da função cognitiva, comprometem a capacidade de usar inaladores corretamente. A escolha do dispositivo deve considerar estas limitações. Inaladores de pó seco (turbuhaler, diskus) requerem fluxo inspiratório mínimo que pode não ser alcançado por idosos frágeis. Aerossóis dosimetrados com espaçadores podem ser mais adequados. Nebulizadores são opção para pacientes com limitações graves.

A polifarmácia em idosos aumenta o risco de interações e efeitos adversos. β2-agonistas podem causar taquicardia e precipitar arritmias em cardiopatas. Anticolinérgicos (tiotrópio) podem causar boca seca, constipação e retenção urinária, particularmente problemáticos em idosos com hipertrofia prostática.

A adesão ao tratamento é desafio frequente. Muitos idosos com DPOC usam apenas broncodilatadores de curta ação para alívio, negligenciando o tratamento de manutenção. A educação sobre a natureza crônica da doença e a necessidade de uso regular dos broncodilatadores de longa ação é essencial.

A vacinação contra influenza e pneumococo é medida fundamental de prevenção em idosos com doenças respiratórias crônicas.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta para a dispensação de medicamentos respiratórios sem orientação sobre técnica inalatória. Uma criança que receba um inalador sem saber usar o espaçador, um idoso que adquira um dispositivo inadequado à sua capacidade inspiratória, cada cenário representa falha terapêutica garantida. Defender o uso racional de medicamentos respiratórios é assegurar que cada dispensação seja acompanhada de demonstração da técnica correta e de verificação da capacidade do paciente em utilizá-la.

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