Metformina: uso em crianças e idosos

 Metformina
uso em crianças e idosos


O uso da metformina em crianças e idosos apresenta particularidades que merecem consideração detalhada, dadas as diferenças na farmacocinética, nos perfis de segurança e nos objetivos terapêuticos nestas populações.

Em crianças e adolescentes, a metformina é o único antidiabético oral aprovado para diabetes tipo 2 nesta faixa etária (a partir dos 10 anos, em alguns países a partir dos 6). A incidência de diabetes tipo 2 em jovens tem aumentado globalmente, paralelamente à epidemia de obesidade infantil, tornando este conhecimento cada vez mais relevante.

A dose inicial em crianças é de 500 mg uma vez ao dia, aumentando gradualmente a cada 1-2 semanas até a dose-alvo de 1000-2000 mg/dia, dividida em duas tomadas. A dose máxima é de 2000 mg/dia. Formulações de liberação prolongada podem melhorar a adesão e reduzir efeitos gastrointestinais.

O perfil de efeitos adversos em crianças é semelhante ao de adultos, com predominância de sintomas gastrointestinais. A adesão pode ser um desafio particular, exigindo suporte familiar e educacional. A monitorização da função renal é necessária, embora a insuficiência renal seja menos comum que em adultos.

O uso de metformina em crianças com diabetes tipo 1, embora não aprovado, tem sido estudado como adjuvante à insulina para redução da dose e melhora do controle glicêmico, com resultados mistos. O risco de cetoacidose é uma preocupação.

Em idosos, a metformina é amplamente utilizada e considerada segura, mas a redução da função renal relacionada à idade exige monitorização cuidadosa. Estima-se que a taxa de filtração glomerular (TFG) decline aproximadamente 1 mL/min/ano a partir dos 40 anos, e muitos idosos apresentam TFG <60 mL/min sem diagnóstico de doença renal crônica.

A avaliação da função renal por equações que estimam a TFG (CKD-EPI, MDRD) deve preceder o início da metformina e ser repetida periodicamente (a cada 3-6 meses em idosos). Para TFG ≥60 mL/min, as doses usuais são seguras. Para TFG 45-59 mL/min, a dose máxima recomendada é de 2000 mg/dia, com monitorização mais frequente. Para TFG 30-44 mL/min, a dose máxima é de 1000 mg/dia, e a relação benefício-risco deve ser cuidadosamente avaliada. Para TFG <30 mL/min, a metformina é contraindicada.

O risco de acidose láctica em idosos, embora baixo, é aumentado por fatores como desidratação (comum por redução da sensação de sede), insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, e uso de diuréticos ou AINEs. A suspensão temporária da metformina em situações de risco (infecções graves, desidratação, procedimentos cirúrgicos, uso de contraste iodado) deve ser sistematicamente considerada.

A deficiência de vitamina B12 é mais comum em idosos, e o uso de metformina aumenta este risco. A monitorização periódica dos níveis de B12 (anualmente) é recomendada, particularmente em idosos com neuropatia ou anemia.

A polifarmácia em idosos aumenta o risco de interações medicamentosas, embora a metformina tenha poucas interações significativas. A associação com diuréticos, IECA, BRA e AINEs pode comprometer a função renal, exigindo monitorização mais frequente.

Os efeitos gastrointestinais da metformina podem ser particularmente problemáticos em idosos com apetite reduzido, contribuindo para perda de peso não intencional e desnutrição. Formulações de liberação prolongada e início com doses baixas podem minimizar este problema.

A adesão ao tratamento em idosos pode ser comprometida por múltiplos fatores: esquecimento, dificuldade de abrir embalagens, problemas de deglutição (comprimidos grandes). Formulações de liberação prolongada (dose única diária) e o envolvimento de cuidadores podem melhorar a adesão.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não afeta diretamente o uso da metformina em crianças e idosos, que exige acompanhamento médico. No entanto, o ambiente de banalização do acesso a medicamentos pode comprometer a percepção de que o tratamento do diabetes nestas populações vulneráveis exige monitorização especial e ajustes individualizados. Defender o uso racional da metformina é assegurar que, independentemente da idade, cada paciente tenha sua função renal avaliada, sua dose ajustada e seus riscos monitorizados.

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