Polifarmácia no idoso

Polifarmácia no Idoso


A polifarmácia, definida como o uso concomitante de múltiplos medicamentos, é extremamente prevalente na população idosa, particularmente naqueles com doenças cardiovasculares crônicas. Estima-se que mais de 40% dos idosos brasileiros utilizem cinco ou mais medicamentos regularmente, frequência que aumenta com a idade avançada e com o número de comorbidades. Este fenômeno, embora frequentemente necessário, carrega riscos significativos que exigem abordagem sistemática para minimizar danos.

As causas da polifarmácia no idoso são multifatoriais. O envelhecimento populacional aumenta a prevalência de doenças crônicas, cada uma com suas diretrizes terapêuticas frequentemente baseadas em evidências de estudos que excluíram idosos frágeis. A fragmentação do cuidado, com múltiplos especialistas prescrevendo para diferentes condições sem comunicação adequada, contribui para a acumulação de medicamentos. A prescrição em cascata, fenômeno no qual um efeito adverso de um medicamento é interpretado como nova condição clínica e tratado com outro fármaco, é particularmente comum nesta população.

As consequências da polifarmácia são numerosas e graves. O risco de reações adversas a medicamentos aumenta exponencialmente com o número de fármacos: estima-se que cada medicamento adicional incremente o risco em cerca de 10%. A probabilidade de interações medicamentosas clinicamente significativas aproxima-se de 100% em pacientes com mais de dez medicamentos. A adesão ao tratamento é comprometida pela complexidade dos regimes, com esquemas de múltiplas doses diárias e exigências variadas (jejum, após refeições, horários específicos).

As alterações fisiológicas do envelhecimento amplificam estes riscos. A redução da função renal, frequentemente subestimada pela creatinina sérica (que se mantém "normal" apesar da perda de função pela redução da massa muscular), compromete a eliminação de fármacos de excreção renal, levando ao acúmulo e toxicidade com doses habituais. A redução da massa hepática e do fluxo sanguíneo hepático altera o metabolismo. O aumento da proporção de gordura corporal modifica o volume de distribuição de fármacos lipofílicos. A maior sensibilidade farmacodinâmica amplifica efeitos terapêuticos e adversos.

Os fármacos cardiovasculares frequentemente protagonizam a polifarmácia no idoso. Anti-hipertensivos de múltiplas classes, estatinas, antiagregantes, anticoagulantes, diuréticos, cada um adicionado conforme diretrizes para condições específicas, podem resultar em regimes complexos de difícil manejo. O risco de hipotensão ortostática (com quedas e fraturas), distúrbios eletrolíticos (particularmente hiponatremia por diuréticos), insuficiência renal (por AINEs ou por desidratação induzida por diuréticos) e sangramentos (por anticoagulantes ou antiagregantes) é significativamente aumentado.

A desprescrição, processo sistemático de identificação e suspensão de medicamentos desnecessários ou com relação benefício-risco desfavorável, emerge como estratégia fundamental no manejo da polifarmácia. Ferramentas como os critérios de Beers (medicamentos potencialmente inapropriados para idosos) e os critérios STOPP/START auxiliam na identificação de fármacos a serem evitados ou reconsiderados. A decisão de desprescrever deve ser compartilhada com o paciente e a família, considerando objetivos de cuidado, expectativa de vida e preferências individuais.

Estratégias para simplificação do regime incluem preferência por fármacos de dose única diária, uso de associações em dose fixa (como losartana/hidroclorotiazida), revisão periódica da necessidade de cada medicamento, e coordenação do cuidado entre especialistas. O envolvimento do farmacêutico na reconciliação medicamentosa e na orientação ao paciente reduz erros e melhora adesão.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta particular para a população idosa. A aquisição facilitada de medicamentos isentos de prescrição (AINEs, antiácidos, analgésicos) sem orientação qualificada pode introduzir fármacos desnecessários em regimes já complexos, com risco de interações e efeitos adversos. Defender o manejo adequado da polifarmácia no idoso é assegurar que cada medicamento prescrito tenha indicação precisa, que o regime seja regularmente revisado e simplificado, e que cada aquisição de medicamentos isentos de prescrição seja acompanhada de orientação sobre riscos e interações.

Comentários