Pressão Arterial e Automedicação
A relação entre pressão arterial e automedicação é complexa e frequentemente perigosa, envolvendo tanto o uso inadequado de anti-hipertensivos por pacientes que não deveriam utilizá-los quanto a utilização de outros medicamentos que elevam a pressão ou interferem com o tratamento em hipertensos. A banalização do acesso a medicamentos, que a PL 2158/23 tende a amplificar, torna esta discussão ainda mais relevante.
O uso de anti-hipertensivos sem prescrição é prática menos comum que a automedicação com analgésicos, mas ocorre, particularmente com fármacos de baixo custo e ampla disponibilidade, como hidroclorotiazida e captopril. Pacientes podem adquirir estes medicamentos por conta própria, baseados em experiência prévia ou recomendação de familiares, expondo-se a riscos significativos: uso em doses inadequadas, falta de monitorização de efeitos adversos (particularmente distúrbios eletrolíticos com diuréticos e tosse ou angioedema com IECA), e ausência de investigação diagnóstica adequada.
Mais frequente e preocupante é a automedicação com medicamentos que afetam adversamente a pressão arterial em pacientes hipertensos. Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), amplamente utilizados para dores diversas, elevam a pressão arterial por retenção de sódio e água e aumento da resistência vascular periférica. Em pacientes hipertensos, este efeito pode descompensar o controle pressórico previamente estável, anulando semanas ou meses de tratamento adequado.
Os descongestionantes nasais (fenilefrina, pseudoefedrina), presentes em inúmeros medicamentos para gripes e resfriados, são agonistas α-adrenérgicos que causam vasoconstrição e elevação da pressão arterial. Em pacientes com hipertensão não controlada ou doença cardiovascular, podem precipitar crises hipertensivas, arritmias e, raramente, acidente vascular cerebral. A orientação sobre estes riscos raramente acompanha a dispensação.
Os corticosteroides, utilizados em formulações tópicas, inalatórias ou sistêmicas para condições alérgicas e inflamatórias, elevam a pressão arterial por retenção de sódio e aumento da resistência vascular. O risco é maior com uso sistêmico prolongado, mas mesmo formulações inalatórias em altas doses podem ter efeito sistêmico significativo.
Os inibidores de apetite (sibutramina, anfepramona, femproporex), embora com venda restrita em muitos países, ainda são utilizados no Brasil. Seus efeitos simpaticomiméticos elevam a pressão arterial e a frequência cardíaca, com risco de eventos cardiovasculares graves, particularmente em pacientes com cardiopatia subjacente.
Os fitoterápicos, frequentemente percebidos como inofensivos, também podem afetar a pressão arterial. Ginseng, efedra (ma huang), alcaçuz (glicirriza) e yohimbina têm efeitos hipertensivos documentados. A erva-de-são-joão, utilizada para depressão, induz enzimas hepáticas e pode reduzir a eficácia de anti-hipertensivos metabolizados por estas vias.
A interação de anti-hipertensivos com medicamentos de venda livre ou fitoterápicos é frequentemente ignorada pelos pacientes, que não consideram estes produtos como "medicamentos" e não os mencionam ao médico. A anamnese farmacológica completa, que inclui questionamento específico sobre uso de medicamentos isentos de prescrição e fitoterápicos, é essencial para identificar riscos.
A orientação farmacêutica, no momento da dispensação de qualquer medicamento a um paciente hipertenso, é oportunidade crucial para prevenir estas interações. Perguntar se o paciente tem hipertensão, alertar sobre os riscos de AINEs e descongestionantes, e recomendar monitorização da pressão após início de novos medicamentos são intervenções simples mas potencialmente salvadoras.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que pacientes hipertensos adquiram medicamentos com potencial pressórico adverso sem qualquer orientação. Defender a segurança do paciente hipertenso é assegurar que, independentemente do local de aquisição, cada dispensação de medicamentos com potencial cardiovascular adverso seja acompanhada de alerta sobre estes riscos e de orientação sobre monitorização.
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