Vitaminas e suplementos
fundamentos e uso racional
O mercado de vitaminas e suplementos nutricionais experimentou crescimento exponencial nas últimas décadas, impulsionado pela percepção, frequentemente equivocada, de que "mais é melhor" e de que produtos "naturais" são intrinsecamente seguros. Esta realidade exige dos profissionais de saúde conhecimento aprofundado para orientar o uso racional e prevenir danos decorrentes do consumo indiscriminado.
Vitaminas são compostos orgânicos essenciais, necessários em pequenas quantidades para funções metabólicas específicas, que o organismo humano não sintetiza em quantidades suficientes. Classificam-se em lipossolúveis (A, D, E, K) e hidrossolúveis (complexo B, C). As lipossolúveis são armazenadas no tecido adiposo e no fígado, com maior risco de toxicidade por acúmulo quando consumidas em excesso. As hidrossolúveis são geralmente excretadas na urina, com menor risco de toxicidade, mas não nulo.
A vitamina D ganhou destaque nas últimas décadas, com reconhecimento de sua importância não apenas para a saúde óssea, mas também para função imunológica, cardiovascular e muscular. A deficiência é comum no Brasil, particularmente em idosos, indivíduos com baixa exposição solar e em certas regiões. A suplementação, quando indicada, é segura, mas o uso indiscriminado de doses elevadas pode causar hipercalcemia, nefrocalcinose e lesão renal.
A vitamina B12 é essencial para a formação de hemácias e para a função neurológica. Sua deficiência é comum em vegetarianos estritos, idosos (por gastrite atrófica e má absorção), e em usuários crônicos de metformina e IBP. A suplementação é segura, mesmo em doses elevadas, pois o excesso é excretado. No entanto, o diagnóstico de deficiência deve ser confirmado antes da suplementação crônica.
O ácido fólico (vitamina B9) é fundamental na prevenção de defeitos do tubo neural durante a gestação, justificando a suplementação universal no período periconcepcional. Na população geral, a deficiência é menos comum desde a fortificação obrigatória de farinhas.
As vitaminas antioxidantes (A, C, E) foram alvo de intensa pesquisa para prevenção de doenças crônicas, com resultados decepcionantes e, em alguns casos, preocupantes. Estudos com betacaroteno (precursor de vitamina A) em fumantes mostraram aumento do risco de câncer de pulmão. A vitamina E em altas doses associou-se a aumento da mortalidade por todas as causas. A mensagem é clara: antioxidantes em suplementos não reproduzem os benefícios observados com dietas ricas em frutas e verduras, e podem ser prejudiciais.
Os minerais – ferro, cálcio, magnésio, zinco, selênio, iodo – são igualmente essenciais. A suplementação de ferro é indicada na anemia ferropriva, mas o uso indiscriminado pode causar sobrecarga, particularmente perigosa em indivíduos com hemocromatose hereditária. O cálcio, quando suplementado em altas doses, tem sido associado a aumento do risco cardiovascular, contrastando com o cálcio dietético, que é protetor.
Os suplementos proteicos e aminoácidos são amplamente utilizados por praticantes de atividade física. A suplementação proteica pode ser benéfica em idosos com sarcopenia e em atletas com necessidades aumentadas, mas o consumo excessivo sobrecarrega os rins e pode contribuir para desidratação e perda de cálcio.
Os suplementos fitoterápicos e "naturais" merecem atenção especial. Produtos como Tribulus terrestris (para "aumento de testosterona"), cafeína em altas doses, e extratos de plantas com efeitos colinérgicos ou adrenérgicos podem causar efeitos adversos significativos, particularmente quando associados a outros medicamentos.
A regulamentação de suplementos no Brasil pela ANVISA é menos rigorosa que a de medicamentos. Produtos são classificados como alimentos, não necessitando comprovar eficácia para registro, apenas segurança. Esta distinção é frequentemente desconhecida pelos consumidores, que atribuem a estes produtos o mesmo rigor dos medicamentos.
A interação entre suplementos e medicamentos é frequentemente negligenciada. Vitamina K antagoniza varfarina. Cálcio e magnésio quelam antibióticos tetraciclinas e fluoroquinolonas. Erva-de-são-joão induz enzimas hepáticas, reduzindo eficácia de anticoncepcionais, anticoagulantes e antirretrovirais.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o acesso a vitaminas e suplementos em ambientes com mínima orientação profissional. A percepção de que "natural" é sinônimo de "seguro" pode levar a consumo indiscriminado, com riscos de toxicidade, interações e, não menos importante, desperdício de recursos. Defender o uso racional de vitaminas e suplementos é assegurar que a suplementação seja baseada em deficiência comprovada ou indicação específica, que as doses sejam adequadas e que os riscos de interações sejam conhecidos e comunicados.
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