Vitaminas e suplementos
interações medicamentosas
As interações entre vitaminas, suplementos e medicamentos são frequentemente negligenciadas, mas podem ter consequências clínicas significativas. A percepção de que produtos "naturais" são inofensivos contribui para que pacientes não informem seu uso aos profissionais de saúde, aumentando o risco de interações.
A vitamina K antagoniza o efeito da varfarina (e de outros anticoagulantes cumarínicos) por ser cofator para a síntese dos fatores de coagulação dependentes desta vitamina. Pacientes em uso de varfarina devem manter ingestão consistente de vitamina K, evitando variações bruscas. A suplementação de vitamina K, quando necessária, deve ser cuidadosamente monitorizada com ajuste da dose de varfarina.
A vitamina E em altas doses (>400 UI/dia) pode aumentar o risco de sangramento quando associada a anticoagulantes (varfarina) ou antiagregantes (AAS, clopidogrel), por efeito antiplaquetário próprio e por potencializar a ação destes fármacos. Deve ser evitada ou utilizada com cautela e monitorização.
A vitamina A em altas doses pode potencializar a hepatotoxicidade de outros fármacos (metotrexato, antirretrovirais, antifúngicos azólicos). O etretinato, retinóide utilizado em dermatologia, tem interação sinérgica com a vitamina A, aumentando o risco de hipervitaminose A.
A vitamina D, quando suplementada em altas doses com cálcio, pode aumentar o risco de hipercalcemia, particularmente perigosa em pacientes em uso de digoxina (aumenta o risco de arritmias) ou diuréticos tiazídicos (que reduzem a excreção renal de cálcio).
O cálcio, como mencionado, quelam antibióticos tetraciclinas e fluoroquinolonas, reduzindo sua absorção. O intervalo recomendado é de pelo menos 2 horas (para tetraciclinas) a 4 horas (para fluoroquinolonas) entre a administração do cálcio e do antibiótico. O cálcio também pode reduzir a absorção de levotiroxina, ferro, bisfosfonatos (alendronato, risedronato) e, teoricamente, de alguns antifúngicos.
O magnésio, além de quelar antibióticos, pode potencializar os efeitos de bloqueadores de canais de cálcio (nifedipino, anlodipino), causando hipotensão excessiva, e de relaxantes musculares, aumentando o risco de fraqueza muscular. Em altas doses, com aminoglicosídeos ou anfotericina B, pode causar fraqueza muscular e paralisia respiratória.
O ferro reduz a absorção de levotiroxina, tetraciclinas, fluoroquinolonas, bisfosfonatos, e inibidores da bomba de prótons (estes últimos também reduzem a absorção de ferro). Deve-se respeitar intervalo de pelo menos 2-4 horas. A absorção de ferro é aumentada por vitamina C, o que pode ser benéfico em pacientes com anemia, mas também pode aumentar a absorção de contaminantes em pacientes com hemocromatose.
O zinco em altas doses pode reduzir a absorção de cobre (causando deficiência) e de antibióticos tetraciclinas e fluoroquinolonas. Pode também reduzir a eficácia de penicilamina (usada em artrite reumatoide e doença de Wilson) por quelação.
O selênio, em altas doses, pode potencializar a toxicidade de fármacos que também causam queda de cabelo e unhas quebradiças (quimioterápicos, lítio).
A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), fitoterápico para depressão leve, é um potente indutor da CYP3A4, CYP2C9, CYP2C19 e da glicoproteína-P. Reduz os níveis e a eficácia de inúmeros fármacos: anticoncepcionais hormonais (risco de falha e gravidez), anticoagulantes (varfarina, DOACs), antirretrovirais, imunossupressores (ciclosporina, tacrolimo), estatinas (sinvastatina, atorvastatina), bloqueadores de canais de cálcio, benzodiazepínicos, e muitos outros. A associação deve ser evitada.
O ginkgo biloba, utilizado para memória, tem efeito antiplaquetário e pode aumentar o risco de sangramento com anticoagulantes e antiagregantes. Relatos de hemorragia intracraniana com a associação justificam cautela.
O ginseng pode reduzir o efeito da varfarina (mecanismo incerto) e potencializar os efeitos de estimulantes (cafeína, anfetaminas), causando hipertensão e taquicardia.
O alho, em altas doses, tem efeito antiplaquetário e pode aumentar o risco de sangramento com anticoagulantes e antiagregantes. Deve ser suspenso antes de cirurgias.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o acesso a vitaminas e suplementos em ambientes com mínima orientação profissional. A percepção de que "natural" é sinônimo de "seguro" pode levar a interações perigosas com medicamentos convencionais. Defender o uso racional de vitaminas e suplementos é assegurar que, no momento da dispensação, seja feita orientação sobre potenciais interações e que os pacientes sejam encorajados a informar todos os profissionais de saúde sobre o uso destes produtos.
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