Automedicação no Brasil
A automedicação, definida como o uso de medicamentos sem prescrição ou orientação profissional adequada, constitui uma das práticas mais disseminadas e perigosas no contexto da saúde pública brasileira. Longe de representar mera autonomia do indivíduo sobre seu cuidado, esta conduta traduz-se em grave problema sanitário, com repercussões que alcançam desde o paciente individual até a coletividade.
O Brasil ocupa posição de destaque no cenário global da automedicação. Estudos epidemiológicos revelam números alarmantes: aproximadamente 89,5% da população adulta brasileira já fez uso de anti-inflamatórios não esteroidais, e 32,2% utilizaram antibióticos, independentemente de prescrição médica. Pesquisas indicam que cerca de 90% da população admite automedicar-se.
Entre 2014 e 2023, foram notificados 23.859 casos de intoxicação exógena por automedicação no sistema de informação de agravos de notificação do Ministério da Saúde, com predomínio do público feminino (70,8%) e adultos entre 20 e 59 anos. Estudo conduzido em centro de informação toxicológica de Santa Catarina revelou 683 casos de intoxicação por automedicação no período de 2014 a 2020, com cinco óbitos registrados, sendo o paracetamol responsável por três destas fatalidades.
A prática da automedicação expõe o indivíduo a riscos imediatos e mediatos. Entre os riscos imediatos, destacam-se as reações adversas, as intoxicações agudas e as interações medicamentosas potencialmente graves. Anti-inflamatórios não esteroidais, amplamente consumidos sem prescrição, associam-se a complicações gastrointestinais, cardiovasculares e renais.
A automedicação com antibióticos reveste-se de particular gravidade por suas implicações coletivas. O consumo destes fármacos sem prescrição contribui diretamente para o fenômeno da resistência bacteriana, transformando infecções outrora facilmente tratáveis em ameaças à vida.
Outro risco frequentemente negligenciado da automedicação é o mascaramento de doenças graves. O alívio sintomático promovido por analgésicos, anti-inflamatórios ou antitérmicos pode ocultar manifestações clínicas fundamentais para o diagnóstico precoce de condições potencialmente letais.
Múltiplos fatores concorrem para a elevada prevalência da automedicação no Brasil: dificuldade de acesso a serviços de saúde, influência de familiares e amigos, propaganda, e percepção de que medicamentos são "simples" e "inofensivos".
A pandemia de COVID-19 produziu efeitos paradoxais sobre a automedicação. Estudo com universitários do sul do país identificou prevalência de 97,2% de automedicação no período regular, que reduziu para 57,2% durante a pandemia. Entretanto, outros estudos demonstram aumento nas intoxicações por automedicação nos anos de 2022 e 2023.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, ameaça agravar significativamente o quadro da automedicação no Brasil. Em um país onde cerca de 90% da população já pratica automedicação, qualquer facilitação do acesso sem orientação representa risco inaceitável à saúde pública.
A automedicação não é expressão de autonomia, mas sintoma de falhas sistêmicas na educação em saúde, no acesso aos serviços e na regulação sanitária. Combatê-la exige políticas públicas robustas de educação, fortalecimento da atenção primária e manutenção de mecanismos regulatórios baseados na ciência.
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