Complexo Industrial da Saúde
O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) é um conceito que articula as dimensões sanitária, econômica e industrial do setor saúde. Compreende o conjunto de indústrias (farmacêutica, de equipamentos e materiais médicos, de vacinas, de hemoderivados) e serviços que produzem bens e tecnologias para a saúde.
O fortalecimento do CEIS é estratégico para a soberania nacional e para a sustentabilidade do SUS. A dependência de importações de medicamentos, vacinas e insumos farmacêuticos expõe o país a vulnerabilidades, como evidenciado pela pandemia de COVID-19, quando a disputa global por suprimentos comprometeu o acesso a itens essenciais.
A indústria farmacêutica instalada no Brasil é predominantemente produtora de medicamentos acabados, com alta dependência de importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs). Atualmente, 96% dos IFAs são adquiridos no exterior, principalmente da China e Índia. Esta dependência é crítica e ameaça a segurança sanitária nacional.
A produção nacional de medicamentos é concentrada em fármacos de menor complexidade tecnológica (anti-hipertensivos, antidiabéticos, analgésicos). Medicamentos biológicos, imunossupressores, oncológicos e outros de alta complexidade são majoritariamente importados ou produzidos por subsidiárias de multinacionais.
Os laboratórios farmacêuticos públicos (Fiocruz, Butantan, FUNED, LAFEPE, entre outros) têm papel estratégico na produção de medicamentos para o SUS, particularmente no Componente Estratégico (vacinas, soros, medicamentos para HIV/aids, tuberculose, hanseníase). Seu fortalecimento é essencial para a redução da dependência externa.
As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) são instrumentos de política industrial que articulam laboratórios públicos e privados para a produção nacional de medicamentos estratégicos. Por meio das PDPs, há transferência de tecnologia, com o laboratório público adquirindo capacidade produtiva ao final do processo.
O marco legal das compras públicas (Lei nº 8.666/93 e suas atualizações) pode favorecer a indústria nacional por meio de margens de preferência em licitações. Esta política, embora controversa do ponto de vista comercial, é justificada pela necessidade de fortalecer o parque produtivo nacional em saúde.
A política de desenvolvimento produtivo em saúde articula-se com a política de assistência farmacêutica. A produção nacional de medicamentos reduz custos, amplia o acesso e diminui a vulnerabilidade a flutuações cambiais e crises de abastecimento global.
A inovação, como discutido, é desafio central para o CEIS. O país precisa avançar da produção de cópias (medicamentos genéricos e similares) para a capacidade de gerar inovação radical (novos fármacos, novas vacinas, novas tecnologias). Este salto exige investimentos consistentes em pesquisa e desenvolvimento, formação de recursos humanos e articulação entre universidades, empresas e governo.
A regulação sanitária, exercida pela ANVISA, é parte integrante do CEIS. Normas claras e previsíveis, alinhadas com padrões internacionais, favorecem o desenvolvimento da indústria nacional e a competitividade dos produtos brasileiros no mercado global.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona diretamente com o CEIS, que opera em nível de produção, não de dispensação. No entanto, o ambiente de banalização do acesso a medicamentos que o projeto representa pode desvalorizar a complexidade da cadeia produtiva farmacêutica, tratando o medicamento como mera mercadoria.
Defender o Complexo Industrial da Saúde é defender a capacidade do país de produzir os bens e tecnologias necessários para a saúde da sua população. É reduzir a dependência externa, garantir o acesso a medicamentos estratégicos e fortalecer a economia nacional. É, fundamentalmente, assegurar a soberania sanitária do Brasil.
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