Hemovigilância

 Hemovigilância


A hemovigilância é o sistema de vigilância sanitária do ciclo do sangue, desde a doação até a transfusão e o acompanhamento dos receptores. Seu objetivo é garantir a qualidade e a segurança do sangue e seus componentes, prevenindo e monitorando eventos adversos relacionados à transfusão.

O sistema de hemovigilância no Brasil é coordenado pela ANVISA, em articulação com o Ministério da Saúde e as hemorredes estaduais. A notificação de eventos adversos relacionados à doação e à transfusão de sangue é obrigatória para todos os serviços de hemoterapia.

As reações transfusionais são os eventos adversos mais monitorados pela hemovigilância. Podem ser imediatas (durante ou até 24 horas após a transfusão) ou tardias (dias a anos após). Incluem reações febris não hemolíticas, reações alérgicas, sobrecarga volêmica, lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (TRALI), e reações hemolíticas (incompatibilidade ABO).

A incompatibilidade ABO, embora rara, é o evento adverso mais temido na hemoterapia, podendo ser fatal. A hemovigilância investiga cada caso para identificar falhas nos processos de identificação do paciente, coleta da amostra, tipagem sanguínea e liberação da bolsa.

A transmissão de infecções por transfusão é outro foco da hemovigilância. A triagem sorológica e molecular de doadores reduziu drasticamente o risco de transmissão de HIV, hepatites B e C, sífilis, doença de Chagas e outras infecções, mas o risco residual persiste e deve ser monitorado.

A hemovigilância também monitora eventos adversos relacionados à doação de sangue, como reações vasovagais (tontura, desmaio), hematomas e complicações mais raras. A análise destes eventos contribui para a melhoria da segurança do doador.

A rastreabilidade é princípio fundamental da hemovigilância. Cada bolsa de sangue deve ser rastreável desde o doador até o receptor, permitindo a investigação de eventos adversos e o recolhimento de componentes em caso de problemas identificados post-hoc.

A capacitação de profissionais de saúde para o reconhecimento e manejo de reações transfusionais é essencial para a efetividade da hemovigilância. Enfermeiros, médicos e farmacêuticos devem estar preparados para identificar sinais de reação e interromper a transfusão quando necessário.

A hemovigilância também monitora o uso racional de sangue e hemocomponentes. A transfusão desnecessária expõe o paciente a riscos sem benefício e desperdiça um recurso escasso e valioso. Indicadores de uso adequado são monitorados pelos serviços.

A pandemia de COVID-19 desafiou a hemovigilância, com redução drástica de doações e necessidade de adaptação dos processos para garantir a segurança de doadores e receptores. A experiência evidenciou a importância de sistemas robustos e resilientes.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com a hemovigilância, que é um sistema específico da hemoterapia. No entanto, o exemplo da hemovigilância ilustra a importância de sistemas de vigilância especializados para garantir a segurança de produtos e procedimentos de saúde.

Defender a hemovigilância é defender que o sangue, como insumo terapêutico insubstituível, seja utilizado com a máxima segurança possível. É assegurar que cada transfusão seja precedida de rigorosa checagem, que cada reação seja investigada e que as lições aprendidas sejam incorporadas à prática. É, fundamentalmente, honrar a dádiva da doação de sangue com o compromisso de usá-lo com segurança e responsabilidade.

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