Inovação Farmacêutica
A inovação farmacêutica compreende o processo de descoberta, desenvolvimento e disponibilização de novos medicamentos, vacinas e produtos para saúde. Este processo, complexo e de longa duração, envolve investimentos bilionários e articulação entre ciência básica, pesquisa clínica, desenvolvimento tecnológico e regulação sanitária.
O processo de inovação farmacêutica inicia-se com a pesquisa básica, que identifica novos alvos terapêuticos (moléculas, receptores, vias metabólicas) com potencial para intervenção. Esta fase, predominantemente acadêmica, é financiada por agências de fomento e universidades.
A fase de pesquisa translacional busca transformar o conhecimento básico em candidatos a fármacos. Envolve a síntese e triagem de milhares de moléculas, a otimização de suas propriedades (eficácia, segurança, farmacocinética) e testes pré-clínicos em modelos celulares e animais.
A pesquisa clínica, como discutido, testa os candidatos a fármacos em seres humanos, em fases sequenciais que avaliam segurança, eficácia e posologia. Apenas 1 em cada 10.000 moléculas testadas na fase pré-clínica chega a ser aprovada como medicamento, processo que leva de 10 a 15 anos e custa bilhões de dólares.
O Brasil figura entre os 13 países com maior produção científica, mas esta produtividade não se traduz em patentes ou novos fármacos. Enquanto na década de 1990 o número de patentes brasileiras equiparava-se ao da China, atualmente o país asiático registra 120 vezes mais. A superação deste "vale da morte" entre ciência básica e inovação tecnológica é desafio central.
O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) é o conjunto de indústrias e serviços que produzem bens e tecnologias para a saúde. O fortalecimento do CEIS é estratégico para a soberania nacional, reduzindo a dependência de importações de medicamentos, vacinas e insumos farmacêuticos.
A pandemia de COVID-19 expôs a fragilidade estrutural do Brasil em termos de soberania sanitária. A dependência de importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) atingiu níveis críticos: atualmente, 96% destes compostos são adquiridos no exterior, uma inversão dramática em relação ao passado, quando cerca de metade da produção era nacional.
As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) entre laboratórios públicos e privados têm viabilizado a transferência de tecnologia para produção nacional de medicamentos biológicos e outros produtos complexos. As PDPs reduzem a dependência de importações e ampliam o acesso da população a medicamentos de alto custo.
A inovação incremental (novas formulações, novas doses, novas associações) é mais comum que a inovação radical (novos mecanismos de ação, novas classes terapêuticas). Embora a inovação incremental traga benefícios (melhor adesão, menores efeitos adversos), a inovação radical é essencial para o avanço terapêutico.
A propriedade intelectual é tema controverso na inovação farmacêutica. As patentes garantem exclusividade de comercialização por período determinado, permitindo o retorno dos investimentos em pesquisa. No entanto, o prolongamento indevido de patentes (evergreening) e os preços elevados dos medicamentos inovadores limitam o acesso da população.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona diretamente com a inovação farmacêutica, mas o ambiente de banalização do acesso a medicamentos que o projeto representa contrasta com a complexidade e o investimento necessários para o desenvolvimento de novos fármacos.
Defender a inovação farmacêutica no Brasil é defender investimentos em ciência e tecnologia, o fortalecimento do complexo industrial da saúde, e políticas que incentivem a pesquisa e o desenvolvimento nacionais. É assegurar que o país não seja apenas consumidor de tecnologias desenvolvidas alhures, mas também produtor de conhecimento e inovação para a saúde da sua população.
Comentários
Postar um comentário